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O fim da Tropical FM: 39 anos de uma rádio independente em São Paulo

O fim da Tropical FM: 39 anos de uma rádio independente em São Paulo

Criada pelo cantor Cyro Aguiar em 1987, emissora construiu uma relação de quase quatro décadas com o público da Grande São Paulo; encerramento abre espaço para volta da Eldorado FM.


O rádio de São Paulo perde uma de suas vozes mais antigas. Depois de 39 anos de atividade, a Tropical FM encerrou sua programação regular em 30 de setembro de 2026, concluindo uma trajetória iniciada em 1987 e marcada pela música popular, pela proximidade com os ouvintes e por uma característica cada vez menos comum no dial: a permanência de uma emissora independente durante quase quatro décadas sob o comando de seu fundador.

No último dia de setembro, comunicadores se despediram do público e os programas foram retirados do ar. Desde 1º de outubro, os 107,9 MHz permaneceram temporariamente com uma sequência de músicas, vinhetas e pequenos programetes da Tropical, mas sem a grade habitual. A frequência passa a abrigar, a partir de hoje, 7 de outubro, a nova fase da tradicional Rádio Eldorado.

A mudança representa muito mais do que a simples substituição de uma marca por outra. Para milhares de ouvintes, desaparece uma companhia cotidiana construída ao longo de décadas — e um modelo de rádio popular que atravessou mudanças de gosto musical, o crescimento das grandes redes nacionais, a ascensão do streaming e a transformação dos hábitos de consumo de áudio.

Quase quatro décadas no dial paulista

A Tropical FM entrou no ar em 1987, nos 107,9 MHz, fundada pelo cantor e compositor Cyro Aguiar. A emissora nasceu no centro de Itapecerica da Serra, município onde está sua outorga, e gradualmente ampliou sua presença na Região Metropolitana de São Paulo.

Em 1998, seus estúdios e sistema de transmissão foram transferidos para a Vila Anglo Brasileira, nas proximidades da Rua Heitor Penteado, na Zona Oeste da capital. A mudança colocou a estrutura da rádio em uma posição privilegiada para cobertura da metrópole e contribuiu para transformar a Tropical em uma presença habitual nos rádios paulistanos.

Diferentemente de muitas frequências do FM metropolitano, que ao longo das últimas décadas mudaram repetidamente de formato, nome e operador, a Tropical desenvolveu uma identidade relativamente estável. Música brasileira, sertanejo, samba, pagode, canções românticas, entretenimento, promoções e participação dos ouvintes formavam sua espinha dorsal.

Sua última grade ajuda a mostrar essa característica. Programas como Madrugada Tropical, Parada da Tropical, Chama no Zap, Tarde Tropical, As Mais Pedidas do Dia, Na Geral, Éramos Todos Jovens, RetrôPical, Samba Show e Festa Tropical dividiam espaço ao longo da semana. O Programa Ely Teruel, por exemplo, ocupava as manhãs a partir das 6h, enquanto Éramos Todos Jovens, apresentado pelo próprio Cyro Aguiar, seguia como uma das atrações diretamente associadas à história da emissora.

Era uma rádio construída dentro de uma lógica bastante tradicional: música, locutor, mensagens de áudio, promoções, prestação de serviço e uma forte sensação de companhia.

De cantor a empresário do rádio

A história da Tropical se confunde diretamente com a trajetória de Cyro Aguiar, nascido em Salvador, em 1942.

Nos anos 1970, Cyro alcançou projeção nacional como cantor e compositor. Entre os trabalhos de maior repercussão estão “Do You Like Samba”, que ganhou circulação também fora do Brasil, e “Crítica”, outro de seus principais sucessos.

Na década de 1980, Cyro passou a dedicar espaço cada vez maior à atividade empresarial. Em 1987, colocou no ar a Tropical FM, conciliando inicialmente a administração da emissora com sua carreira artística.

Sua ligação com o microfone, entretanto, nunca desapareceu. Durante décadas, o fundador continuou também como uma das vozes identificadas com os 107,9 MHz.

“Éramos Todos Jovens”

Talvez nenhuma atração simbolize melhor essa ligação entre a trajetória pessoal de Cyro e a história da Tropical do que Éramos Todos Jovens.

No programa, Cyro Aguiar recuperava artistas e repertórios principalmente das décadas de 1960 e 1970, dando espaço a nomes que muitas vezes já haviam desaparecido das programações musicais das grandes emissoras.

Mais do que uma sequência de músicas antigas, a atração também funcionava como espaço de memória. Cyro recebia artistas, recuperava histórias de suas carreiras e mantinha em circulação repertórios ligados à Jovem Guarda e à música popular brasileira daquele período.

A atração permaneceu na programação até os últimos dias da Tropical, quase quatro décadas depois da criação da emissora.

Um lado diferente: o Tropical Especial

A emissora também experimentou formatos que fugiam de sua programação predominantemente popular.

No final dos anos 1980, ia ao ar, nas noites de sábado, o Tropical Especial. Com uma proposta mais sofisticada, a atração reunia trilhas sonoras, entrevistas com artistas e conteúdos relacionados à música e à cultura.

O programa contava com patrocínio da Varig e era apresentado por Eduardo Cappia, engenheiro eletrônico que posteriormente se consolidaria como um dos profissionais de referência da área técnica do rádio brasileiro, mantendo atuação no setor até os dias atuais.

Era uma programação bastante diferente do restante da grade e mostrava que, especialmente em seus primeiros anos, a Tropical ainda experimentava diferentes possibilidades de ocupação dos 107,9 MHz.

Com o tempo, porém, prevaleceu aquilo que se tornaria sua principal identidade: uma rádio essencialmente popular e próxima de seu ouvinte.

O rádio da companhia

Essa proximidade talvez seja uma das chaves para compreender por que o fim de uma emissora como a Tropical não pode ser medido apenas por números de audiência.

Durante décadas, rádios populares construíram relações pessoais com seus públicos. O ouvinte reconhece o locutor pela voz, sabe o horário de determinados programas, participa de promoções, envia mensagens e incorpora aquela programação à rotina.

No carro, no comércio, no trabalho ou em casa, a rádio deixa de funcionar apenas como tocador de músicas e passa a exercer também uma função de companhia.

A Tropical preservou fortemente esse modelo.

Enquanto plataformas digitais passaram a oferecer catálogos praticamente infinitos e algoritmos capazes de selecionar músicas de acordo com cada usuário, a rádio continuou oferecendo algo diferente: uma programação compartilhada por milhares de pessoas simultaneamente e conduzida por comunicadores conhecidos.

É uma experiência menos personalizada tecnologicamente, mas muitas vezes mais pessoal do ponto de vista afetivo.

O arrendamento dos 107,9 MHz

O encerramento da Tropical não ocorreu porque a frequência foi vendida ou porque Cyro Aguiar deixou de ser responsável pela emissora que detém sua outorga.

Idoso, Cyro Aguiar preferiu aceitar a proposta e abriu mão da grade da Tropical, comercializando integralmente o uso programação para a Eldorado, enquanto a estação responsável pelos 107,9 MHz continua sob seu controle.

A mudança ocorreu no contexto do arrendamento integral da programação dos 107,9 MHz para a nova fase da Rádio Eldorado, do Grupo Estado. Com o acordo, Cyro Aguiar abriu mão da grade da Tropical e o espaço de programação da frequência passa a ser ocupado pela Eldorado, enquanto a estação responsável pelos 107,9 MHz permanece vinculada a Cyro, que já está com mais de 80 anos.

Na prática, portanto, o que houve foi uma mudança na exploração da programação, e não a venda da frequência ou a transferência da titularidade da outorga.

A decisão encerrou uma atividade mantida por Cyro durante quase quatro décadas e abriu caminho para o retorno ao FM de outra marca histórica do rádio paulistano.

A última programação

Na noite de 30 de setembro, a programação da Tropical chegou ao fim. Os programas regulares deixaram a grade e diversos comunicadores se despediram da audiência pelas redes sociais.

Nos dias seguintes, a frequência permaneceu executando músicas e vinhetas da Tropical, numa espécie de período de transição até a chegada da Eldorado.

Mudança de emissora

O encerramento da grade da Tropical, entretanto, não significou o desaparecimento de todos os seus programas e comunicadores. Alguns encontraram rapidamente novos espaços no dial paulistano.

Uma das transferências ocorreu antes mesmo de a última programação da Tropical sair do ar.

A comunicadora e vereadora Ely Teruel, que comandava seu programa nas manhãs dos 107,9 MHz, acertou sua entrada na Top FM 102,1. O Programa Ely Teruel estreou na nova emissora em 1º de outubro, apenas um dia depois do encerramento da programação regular da Tropical, mantendo a faixa das 6h às 9h, de segunda a sábado. A atração segue apostando em informação, mensagens positivas, prestação de serviço e proximidade com a comunidade.

Para parte da antiga audiência da Tropical, portanto, a mudança exige apenas uma alteração no dial: dos 107,9 para os 102,1 MHz.

Outro programa que deixou os 107,9 MHz com destino definido foi o Na Geral. A tradicional atração de esportes e humor, comandada por Beto Hora, passará a integrar a programação da MyNews VIP FM 90,9, com estreia prevista para 11 de outubro.

O Na Geral estava nos 107,9 MHz desde setembro de 2024 e acumula uma longa trajetória pelas emissoras paulista.

Essas transferências ajudam a mostrar que, embora a Tropical desapareça como emissora, partes de sua programação continuam vivas em outros pontos do dial.

Para onde pode ir o ouvinte da Tropical?

O público da Tropical não fica sem alternativas, embora nenhuma emissora reproduza exatamente a combinação de estilos, comunicadores e programas que caracterizava os 107,9 MHz.

Para quem acompanhava a emissora principalmente por causa de Ely Teruel, a alternativa já está definida: a Top FM 102,1.

Quem gostava do humor e do conteúdo esportivo do Na Geral poderá acompanhar o programa pela MyNews VIP FM 90,9.

Já do ponto de vista estritamente musical, a antiga audiência tende a se dividir.

O ouvinte interessado principalmente em samba e pagode encontra na Transcontinental FM 104,7 uma das alternativas mais próximas desse segmento.

Quem procura uma combinação de sertanejo, pagode e grandes sucessos populares pode encontrar maior afinidade na Band FM 96,1.

Para o público ligado especialmente ao sertanejo e ao repertório romântico, a Nativa FM 95,3 também ocupa espaço semelhante dentro do rádio popular paulistano.

Há ainda a própria Top FM 102,1, que, além de receber Ely Teruel, mantém uma programação de perfil popular.

O que não existe é uma transferência automática do “ouvinte da Tropical” para uma única concorrente. Na prática, a audiência tende a se pulverizar. Parte acompanhará comunicadores específicos. Outra parcela buscará rádios com repertório semelhante.

Quando a Tropical encerra sua programação, São Paulo perde uma das poucas operações que atravessaram décadas mantendo o mesmo nome, a mesma frequência e uma forte ligação com seu fundador e suas raízes.

Não desaparecem apenas algumas horas de sertanejo, samba, pagode ou música romântica. Para praticamente todos esses gêneros existem alternativas no próprio dial.

O que não pode ser transferido integralmente é a memória de uma rádio. Frequências podem receber novas marcas, programas podem encontrar outros endereços e ouvintes podem reorganizar seus hábitos. Mas a relação construída durante 39 anos entre a Tropical, seus comunicadores e seu público, pertence a uma história específica.

Os 107,9 MHz continuam no dial. A Tropical FM, a partir de agora, passa a pertencer à história do rádio de São Paulo.

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Maurício Viel

Maurício Viel

Maurício Viel é jornalista e historiador do rádio e da TV. É coautor do livro “TV Tupi: Do Tamanho do Brasil” e membro do MBRTV - Museu Brasileiro de Rádio e Televisão.

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