O Rádio precisa de mais janelas e menos Windows
Luiz Henrique Romagnoli defende maior conexão das emissoras FM com o cotidiano dos ouvintes e destaca a importância de ampliar a abordagem de temas relevantes para a sociedade
Chato voltar a um assunto chato, mas a campanha eleitoral mostrou que os meios de comunicação - fico na praia do Rádio- estão desconectados do que acontece ali no seu quadrado. Na eleição de deputados, além das tradicionais figurinhas carimbadas, vimos um desfile de ilustres desconhecidos falando de temas que têm a ver com o nosso dia a dia, mas que aparecem como novidades extraterrenas.
Onde ficam durante quatro anos personagens de todo o leque político com suas bandeiras? Há muita gente interessada em aleitamento materno, robótica nas escolas, cuidados pros que passam dos 80 anos, defesa dos pets, de humanos vários tipos, das áreas verdes, até do verde da canabis e uma imensa lista de temas esquecidos.
Estes assuntos estiveram por aí, zanzando na nossa vida ou ao nosso lado. Neste ano, a campanha eleitoral popularizou e tornou unanimidade a causa das mães atípicas em um mês e pouco. E elas estavam há anos do nosso lado, quietas na sua batalha.
O Rádio não abriu as janelas para estes temas – mostrando ou não os candidatos-personagens. A conversa aqui não é com as rádios jornalísticas, que de um jeito ou de outro, abordaram os assuntos. Mesmo que escanteados para os horários mais mornos, fora do rush de comentários, colunistas e opiniões variadas sobre assuntos repetidos. Isso é pra outra hora.
Eu falo das FMs, populares, musicais e religiosas, por que não? A noção do que seja notícia ou serviço na maioria destes prefixos é a de cumprir uma obrigação regulamentar, que têm de passar rápido para não incomodar o ouvinte.
Como se milhões de pessoas deixassem de ser motorista de aplicativo, apostador de bets, empreendedores, funcionários públicos para virarem ouvintes de músicas, conversa, vinhetas e comerciais.
Eu daqui acho que a rádio estar perto do ouvinte significa compartilhar o seu cotidiano, saber onde o calo aperta com a mesma competência que têm para escolher repertório, voz padrão e regulamento de promoções.
Significa que o jornalismo da rádio — quase chamei de departamento, há, há, há— precisa de redatores mesmo, e não “recórteres”, que repetem as novidades de sempre que transitam pelos sites jornalísticos. Claro que uma fofoca de famosos de vez em quando não faz mal. Só não precisa descer ao oco das sub-celebs.
Que no caminho para o trabalho tenham tirado o nariz do celular e prestado atenção no que acontece à sua volta. E durante o dia, ao menos de vez em quando, feche o Windows e abra a janela pra notícia entrar.
E finalmente, descubra um jeito de comunicar com ouvinte na linguagem que dialogue, aproveitando a levada do apresentador, o mod da rádio. Que criem interesse do ouvinte saber mais. Os resultados podem ser surpreendentes.
E siiimmmm, isso deve ser a diretriz da rádio, prática incentivada, meta de gestão. Que na próxima entrevista com um jovem redator, os gestores procurem essa curiosidade sobre o mundo com o mesmo empenho que usam para avaliar voz, presença e desenvoltura qualidades num apresentador.
Luiz Henrique Romagnoli é jornalista, produtor de áudio, professor, consultor. Este artiguinho é completamente dedicado ao gênio do radiojornalismo, Fernando Vieira de Mello, com quem tive o prazer de trabalhar na Jovem Pan, antes que ele se fosse e virasse viaduto na av. Rebouças. E antes que aquela Jovem Pan, também se fosse.


