Palavrões, ataques e agressividade: esse é o horário eleitoral que queremos no rádio?
Horário eleitoral no rádio: quem cuida do que colocam no nosso ar?
O rádio brasileiro precisa discutir com mais força o horário eleitoral gratuito. Mas é justo começar reconhecendo: essa luta não começou agora e o setor já conseguiu avanços importantes.
A ABERT e as associações estaduais atuaram na reforma eleitoral de 2015 que reduziu de 45 para 35 dias o período de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Em 2017, o Congresso chegou a discutir um modelo que permitiria aos partidos comprar propaganda nas emissoras comerciais, proposta que acabou não prevalecendo. Portanto, essa discussão já existiu e precisa continuar.
Mas, vamos lá. Quem cuida ou regula o que é falado pelos candidatos?
Para mim, essa é hoje uma das questões mais graves.
Durante o ano inteiro, uma rádio estabelece critérios para seus comunicadores. Cuida das palavras, do horário, do perfil do público e da experiência do ouvinte.
Aí chega o período eleitoral e, às 7 horas da manhã, uma família pode estar levando uma criança para a escola e ouvir propaganda tratando de estupro, assassinato, pena de morte, acusações de que adversários são “bandidos”, ataques pessoais, palavras agressivas e até palavrões.
Muitas emissoras jamais aceitariam essa linguagem em sua programação normal.
Mas são obrigadas a transmitir o material eleitoral.
Então pergunto: quem está cuidando dessa linguagem?
A Justiça Eleitoral estabelece limites. A Resolução TSE nº 23.610 proíbe propaganda que degrade ou ridicularize candidaturas e permite que a Justiça impeça a reapresentação de conteúdo considerado ofensivo. Ao mesmo tempo, não são permitidos cortes instantâneos ou censura prévia pela emissora.
E é justamente aí que está o problema.
Mas depois que foi ao ar, já foi.
O ouvinte já escutou. A criança já escutou. A agressividade já entrou dentro do carro ou da casa daquela família.
E existe uma questão que os próprios candidatos e suas equipes deveriam se fazer: será que despejar palavrões, ataques, acusações e palavras negativas no rádio demonstra realmente uma boa conduta para quem está ouvindo?
A disputa política pode e deve existir. O confronto de ideias faz parte da democracia. Mas transformar o horário eleitoral numa sequência de agressões também tem consequência sobre a imagem de quem produz esse conteúdo e sobre o meio que é obrigado a transmiti-lo.
Não estou defendendo que uma emissora tenha o direito de censurar candidatos. Estou defendendo uma discussão sobre respeito à linguagem do rádio e respeito ao ouvinte.
Enquanto isso, milhões vão para o digital
Existe outra contradição difícil de ignorar.
Campanhas investem milhões de reais em impulsionamento na internet.
Em apenas um mês de campanha de 2026, uma única candidatura à Presidência declarou R$ 2,6 milhões em impulsionamento no Facebook e Instagram. Outra campanha estadual havia gasto R$ 1,3 milhão. Segundo levantamento baseado em dados públicos do TSE, a Meta já acumulava mais de R$ 144 milhões em contratos eleitorais.
Ou seja: dinheiro para distribuição de propaganda política existe.
No ambiente digital, campanhas contratam impulsionamento dentro das regras eleitorais e as plataformas possuem mecanismos de análise, aprovação, recusa e distribuição desses anúncios.
No rádio e na televisão é diferente.
A legislação proíbe propaganda política paga e determina que as emissoras transmitam o horário eleitoral gratuito. É verdade que existe compensação fiscal pela cessão desse espaço, prevista na legislação. Portanto, quando falamos em gratuidade, significa que a campanha não paga diretamente à emissora.
Mesmo assim, a diferença entre os modelos chama atenção.
No digital existe contratação de alcance. No horário eleitoral do rádio existe uma obrigação legal de transmissão, sem que a emissora tenha o mesmo controle editorial sobre o material.
Se campanhas têm milhões para investir em plataformas digitais, por que o modelo do rádio e da televisão não pode sequer voltar à mesa para discussão?
Quem trabalha no rádio conhece o problema operacional
Também não é apenas uma questão de linguagem ou dinheiro.
É operação.
O horário eleitoral ocupa faixas importantes da programação, como 7 horas da manhã e meio-dia, além das inserções distribuídas durante o dia.
Na eleição presidencial de 2026, a geração e distribuição do programa de rádio envolvem um pool instalado no TSE, integrado por EBC, Rádio Câmara e Rádio Senado, com formas específicas para captação do sinal.
Quem está dentro da emissora conhece a prática.
Em determinadas situações, precisamos recorrer à transmissão da EBC pela internet para conseguir colocar o conteúdo corretamente no ar.
E se a internet cair?
E se houver falha na captação?
Se o conteúdo já existe digitalmente, por que não facilitar cada vez mais sua disponibilização antecipada para que a rádio possa baixar, conferir e programar com segurança no playout?
Tecnologia existe para simplificar. Não para criar mais risco operacional.
E quando a rede é domingo à noite?
A mesma discussão vale para pronunciamentos oficiais.
Imagine uma rádio regional ou uma pequena emissora em pleno domingo, às 20h30. Muitas operações estão automatizadas e não possuem naquele momento a mesma equipe disponível durante a semana.
Surge uma transmissão obrigatória e alguém precisa reorganizar a operação para garantir aquilo no ar.
Quando o pronunciamento é previamente gravado, fica uma pergunta muito simples:
por que não disponibilizar o arquivo antes?
A rádio poderia receber na sexta-feira, conferir, programar e cumprir sua obrigação no domingo com muito mais segurança.
Isso não altera o conteúdo nem diminui sua importância institucional.
Apenas traz a operação para a realidade tecnológica atual.
O rádio não é um cano por onde passa áudio
Talvez esse seja o ponto que mais precisamos fazer Brasília compreender.
Uma emissora não é simplesmente um equipamento que recebe um sinal e retransmite.
Existe produto. Existe programação. Existe audiência. Existem anunciantes. Existem profissionais. E existe um ouvinte do outro lado.
A ABERT e as associações já conseguiram avanços. Mas cadê as mais de 10 mil rádios do Brasil exigindo de seus Deputados e Senadores regionais que isso mude?.
É necessário discutir a linguagem.
É necessário discutir a operação.
É necessário discutir a compensação.
É necessário discutir o tratamento dado ao rádio em comparação com as plataformas digitais.
Mas, acima de tudo, precisamos voltar a discutir respeito ao ouvinte.
Porque confronto político não precisa significar palavrão. Divergência não precisa significar uma sequência interminável de ataques. E liberdade para apresentar propostas não deveria virar licença para transformar o rádio em um ambiente agressivo durante semanas.
Existem regras e existem mecanismos para punir abusos.
Mas existe uma realidade que nenhum processo posterior consegue mudar: depois que foi ao ar, já foi.