IBC2026: Rádio 3.0, proeminência e IA exigem maior velocidade do setor, aponta debate da ABERT com o tudoradio.com
Amsterdã – Podcast reúne Cristiano Flores, Cristiano Stuani e Daniel Starck em balanço sobre os desafios do rádio após o evento
O IBC2026 encerrou sua programação há uma semana, mas as discussões acompanhadas durante os quatro dias de feira e congresso em Amsterdã continuam oferecendo elementos para o debate sobre os próximos movimentos da indústria de rádio. Em um podcast especial gravado durante o evento, realizado pela ABERT em conjunto com o tudoradio.com, Cristiano Flores, presidente da ABERT, Cristiano Stuani, consultor, e Daniel Starck, CEO do tudoradio.com, reuniram algumas das principais percepções deixadas pela edição deste ano, relacionando o cenário internacional ao conceito de Rádio 3.0, à presença multiplataforma, aos automóveis, à inteligência artificial e aos desafios enfrentados pelos diferentes negócios de mídia. A conversa ocorreu após a participação dos três no Aerp Day, que integrou a programação internacional dedicada ao rádio durante o IBC2026. O encontro também serviu para avaliar como várias das discussões vistas em Amsterdã se aproximam de movimentos que já estão em curso no mercado brasileiro. Para Flores, essa proximidade foi um dos aspectos mais relevantes da edição. “Eu não vi nada que me trouxesse um ineditismo daquilo que nós estamos discutindo no Brasil”, afirmou. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.
IBC aproxima discussões internacionais do mercado brasileiro
Cristiano Flores destacou inicialmente as características do próprio IBC e a diversidade de soluções encontradas nos pavilhões e conferências. Segundo o presidente da ABERT, a organização permite acompanhar desde empresas iniciantes até tecnologias já consolidadas. “Eu particularmente gosto muito, muito, muito da feira do IBC. Eu gosto muito de como os espaços são divididos e do acesso que você pode ter às conferências. E o que eles trazem de novidade, do pequeno negócio sendo desenvolvido, das startups, até soluções já tecnologicamente provadas e que estão no mercado há muito tempo”, afirmou.
A edição deste ano também marcou a presença de um estande da ABERT no IBC, iniciativa realizada em parceria com o Governo Federal, por intermédio da ApexBrasil. Flores relacionou a estrutura ao crescimento da presença brasileira no evento. “Ele já está consolidado no NAB, mas é trazido agora para o IBC justamente pelo fato da maior participação dos brasileiros na feira. E se tem mais brasileiro, nós temos que promover mais ações setoriais e criar mais espaços para os nossos radiodifusores.”
Foi nesse ambiente que o conceito de Rádio 3.0 voltou a aparecer como um dos fios condutores da conversa. Flores afirmou ter ficado satisfeito com a recepção da proposta durante o encontro internacional. “Eu estou muito feliz e muito satisfeito com o conceito que nós temos trabalhado do Rádio 3.0. O quanto ele tem sido aderente aqui no evento que nós tivemos pela manhã. Vocês veem que é um conceito que vem sendo absorvido pela comunidade da radiodifusão de uma forma muito receptiva.”
Para o presidente da ABERT, porém, a organização desse conceito também expõe desafios que precisam ser enfrentados pelo setor. Entre eles estão a compreensão prática do que significa ser multiplataforma e a manutenção da relevância do rádio em ambientes estratégicos, principalmente nos automóveis. “Ele traz muitos desafios. Nós fomos discutindo hoje, foram se abrindo várias janelas do que é este multiplataforma, como é que nós trabalhamos esse conceito e essa fortaleza do rádio nos veículos automotores. Eu acho que é a terceira edição que nós temos falado muito disto, do quanto o rádio é um veículo indispensável, mas ele tem que ser mostrado para a sociedade, sobretudo o valor de interesse público que ele tem”, disse Flores.
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Ver todosRádio 3.0 organiza uma transformação que já está acontecendo
Daniel Starck observou que uma das reações percebidas durante a apresentação sobre Rádio 3.0 foi justamente o reconhecimento, por parte de radiodifusores, de que várias práticas descritas pelo conceito já fazem parte de suas operações. “Você vê a cara dos radiodifusores, alguns falando: ‘Não, mas eu faço isso. Eu já faço isso’. Ou seja, é uma questão de organização do discurso e da lógica, e também dessa iniciativa do setor.”
Ao mesmo tempo, Starck destacou que existem diferentes níveis de desenvolvimento dentro do mercado brasileiro. “Tem aqueles que ainda, digamos, por vários motivos, seja pela praça, seja pelas prioridades, estão em estágios diferentes. Então, acho que a ideia, justamente através da ABERT, das associações, é puxar a régua para algo mais próximo desses que estão sendo como exemplos.” Esse movimento coletivo, segundo ele, também pode ser observado em mercados europeus, especialmente nas discussões envolvendo a presença do rádio nos automóveis. “A gente vê também outros mercados, como o caso aqui da Europa. Você puxa a régua e age com uniformidade, você consegue coisas muito importantes, como a proeminência do rádio nos carros, por exemplo, e também em outros ambientes.”
Cristiano Stuani concordou com a leitura de que o Rádio 3.0 organiza práticas que já estão em andamento. “O conceito do 3.0 veio para organizar o que o rádio já faz, principalmente no Brasil”, afirmou. O consultor também chamou atenção para características do rádio europeu, que considera avançado em termos de conteúdo e produto. “A gente percebe que o mundo vive o Rádio 3.0 e está faltando o conceito ser aplicado mesmo.”
Ao acompanhar as conferências do IBC, entretanto, Stuani identificou aspectos nos quais o rádio brasileiro pode avançar, principalmente na organização dos conteúdos distribuídos em plataformas digitais. “O rádio brasileiro precisa organizar um pouco mais o conteúdo, principalmente nas plataformas, na questão dos nichos, afinidade de audiência, as comunidades de audiência”, afirmou. Para ele, essa transformação não necessariamente depende de investimentos elevados. “Não é tão difícil quanto o radiodifusor pode pensar: ‘Lá vem falar que a gente tem que gastar tanto’. Não, eu acho que não é por aí. É a organização do que já está acontecendo.”
Automóvel, proeminência e interesse público
A presença do rádio nos automóveis foi um dos assuntos recorrentes do IBC2026. Durante o fórum internacional dedicado ao meio, foram apresentados dados sobre a importância que consumidores europeus continuam atribuindo ao rádio dentro dos veículos, além de discussões sobre a necessidade de garantir sua fácil localização nos sistemas de entretenimento embarcados.
Flores relacionou essa discussão ao ambiente regulatório europeu. Segundo ele, há diferenças importantes entre a forma como Europa e Estados Unidos lidam com novas tecnologias e mercados. “O europeu tem uma tendência natural de regular. O europeu tem essa preocupação com a coisa pública, que é diferente do americano. O americano é um modelo de negócios puramente business. O europeu traz aquela regulação.”
O presidente da ABERT citou como exemplo o debate europeu envolvendo inteligência artificial, no qual a regulamentação avançou rapidamente. “Às vezes o europeu sofre uma crítica de regular antes do florescimento do próprio serviço ou produto. É a discussão do regulamento da inteligência artificial, em que os europeus se anteciparam, criaram o regulamento, e há muitas críticas de que eles primeiro criaram o cinto de segurança antes de desenvolver o próprio carro.”
No caso do rádio nos automóveis, porém, Flores considera que a experiência europeia oferece referências importantes. “Essa previsão e esse desenvolvimento de atos europeus que obriguem os fabricantes a terem o rádio e, mais do que isso, deem destaque à proeminência, ele não só é algo de interesse público, como também hoje foi mostrado na palestra, o consumidor deseja, porque o produto é bom e ele existe.”
Para ele, a questão não está apenas na existência de demanda pelo rádio, mas também na facilidade com que o meio pode ser encontrado em ambientes controlados por diferentes empresas e plataformas. “O que a gente tem é não só um bom produto, mas como também a gente tem que evitar ser escondido por outros agentes de mercado que querem competir de forma desigual com o nosso mercado.” Flores acrescentou que discussões semelhantes já aparecem na televisão aberta brasileira diante da evolução dos televisores conectados. “A televisão aberta pela televisão conectada tem sofrido o mesmo problema. Então, eu acredito que a gente tem sido vanguardista na busca de políticas públicas, tanto para a televisão, mas aqui falando especificamente para o rádio, aproveitando a qualidade desse nosso produto, que tem altos níveis de audiência como aqui na Europa.”
Estar em todos os ambientes em que está o ouvinte
A discussão sobre proeminência também se conecta diretamente à ampliação dos pontos de distribuição. Flores destacou que a radiodifusão não pode considerar apenas o dial quando uma parcela crescente do consumo passa por carros conectados, caixas inteligentes e outros dispositivos. “Não adianta nada você ficar excluído num cluster exclusivo de frequência, quando hoje grande parte do consumo está nos carros conectados, está nas caixas inteligentes. Então você realmente tem que correr atrás”, afirmou. Starck resumiu essa lógica durante a conversa: “Estar em tudo. Estar em tudo.”
Para Flores, essa presença está diretamente ligada ao desenvolvimento das marcas de rádio. A ideia também apareceu em diferentes discussões acompanhadas durante o IBC2026, nas quais empresas de mídia mostraram estratégias que combinam ambientes próprios com plataformas de terceiros. Starck relacionou o movimento à própria disputa entre plataformas digitais. “Quando a gente viu palestra de digital também, tem toda a história do acesso, não só o digital, a competição entre os players, inclusive na guerra dos streamings também, se aliando, porque o negócio está meio nebuloso para todo mundo, inclusive para os disruptivos.”
“Não está fácil para ninguém”
Esse cenário levou Stuani a ampliar a discussão para a própria situação das plataformas digitais. “Não está fácil para ninguém. Eu não quero ser pessimista, não é isso”, afirmou. Flores complementou: “É o mercado acirrado.” Para Stuani, a palavra mais adequada é “desafiador”. “Está desafiador para todos os meios. E será que o digital está tão bem assim quanto a gente também vende e compra que está?”, questionou.
Stuani, que também atua diretamente com projetos digitais, citou a quantidade crescente de conteúdo disponível e as mudanças frequentes nos sistemas de distribuição. “É um mar de conteúdos, é muita oferta, é muita mudança. Você encontra essas big techs, que são grandes empresas de mídia, na verdade, elas se perdendo nas suas estratégias de algoritmos para entregar conteúdos.”
Para ele, nem mesmo as grandes plataformas digitais parecem ter um caminho totalmente definido para os próximos anos. “A gente percebe, na minha opinião, que o digital também não está tão certo do que ele vai fazer daqui para frente. E ainda tem uma confusão, cortando um pouco, de uma inteligência artificial influenciando em tudo.” Starck observou que a velocidade dessa transformação faz com que decisões tomadas atualmente possam produzir consequências difíceis de antecipar. “A gente vê soluções sendo feitas ou ações sendo feitas hoje que você já está vendo que, de repente, o cara que fez antes vai cobrar dele lá na frente também. Um vai puxando o outro, criando problemas futuros. A situação, a velocidade é muito rápida.”
Afinidade, comunidade e controle editorial
Outra discussão presente no IBC2026 foi a passagem de uma lógica baseada exclusivamente em alcance para estratégias que também consideram afinidade e relacionamento com comunidades. Flores recuperou esse ponto ao comentar a participação de Starck no painel realizado durante o Aerp Day. “Eu acho que o Daniel, na palestra, falou com base até na experiência que vocês tiveram aqui nas visitações, dessa disputa por afinidade”, afirmou Flores.
Para o presidente da ABERT, o conceito de Rádio 3.0 ganha força justamente porque amplia a distribuição sem exigir que a emissora abra mão do controle sobre o conteúdo que produz. “Eu acredito que o modelo do Rádio 3.0 está fazendo total sentido porque a gente amplia a distribuição, ou consolida um conceito de algo que vem sendo feito de distribuição desse conteúdo, sem perder de vista essa qualidade e esse controle editorial sobre o conteúdo.”
Flores também relacionou essa característica às mudanças provocadas pela inteligência artificial e às dúvidas crescentes sobre a origem das informações consumidas no ambiente digital. “Nós estamos num momento de inflexão social. As pessoas estão consumindo cada vez mais e cada vez mais preocupadas se aquilo é verdade ou não. E a inteligência artificial justamente trouxe um dilema ainda maior, porque hoje a internet virou quase um terreno robotizado.”
Segundo ele, essa transformação pode criar distorções inclusive no mercado publicitário, com interações automatizadas que não necessariamente correspondem ao público que o anunciante pretende alcançar. Nesse cenário, Flores considera que características tradicionais da radiodifusão podem assumir novo valor competitivo. “Eu acredito que o nosso setor, ao realizar algo orgânico, mas presente no hábito de consumo, ele naturalmente não só se transforma, ele é um agente de competição diferenciado em relação à origem dos nativos digitais, pela inserção na comunidade, pelo compromisso social e pela qualidade do produto que ele desenvolve.”
IA deixa de ser promessa e passa a exigir capacitação
Se a presença multiplataforma atravessou boa parte das discussões sobre distribuição, a inteligência artificial esteve presente praticamente em todos os segmentos do IBC2026. Para Flores, o estágio atual da tecnologia exige uma mudança na própria maneira como profissionais e empresas lidam com aprendizado. “Com tudo o que a gente viu aqui de inteligência artificial, eu costumo dizer que a gente quase deveria voltar à escola para redescobrir ou reaprender a aprender. A inteligência artificial está mudando a forma como a gente deve lidar com o conhecimento”, afirmou.
Na avaliação do presidente da ABERT, o setor precisa acelerar a familiarização com essas ferramentas. “É muito importante que o radiodifusor aprofunde com a maior brevidade possível as discussões e o aprendizado das ferramentas de IA. Isso não é brincadeira, cada ano as ferramentas têm evoluído de uma forma sensível.”
Flores observou ainda uma mudança importante na natureza das discussões realizadas no IBC. A questão já não seria simplesmente se a inteligência artificial será utilizada pelas empresas de mídia, mas quais aplicações efetivamente produzem resultados. “O IBC é tangenciado por discussões não só mais sobre inteligência artificial, que é uma realidade, mas sobre quais ferramentas são efetivas e quais trazem ganhos de eficiência ao desenvolvimento dos negócios de mídia”, disse.
Diante desse cenário, Flores antecipou que a capacitação deverá ocupar espaço importante nas ações da ABERT. “Nós vamos investir o ano que vem, de forma muito aguda, em capacitação.” Ao mesmo tempo, reforçou que a iniciativa também precisa partir individualmente dos radiodifusores. “Como a gente não faz as coisas sozinho, é importante que o radiodifusor também busque por si mesmo esse aprimoramento em inteligência artificial, que é a grande tônica.”
Custos também entram na discussão sobre inteligência artificial
Stuani acrescentou outro componente ao debate: o custo crescente das ferramentas de inteligência artificial conforme elas passam a ser incorporadas aos fluxos cotidianos de empresas e profissionais. “A inteligência artificial começou a ficar cara. Eles jogaram a isca, a gente caiu, agora a gente ficou dependente. É uma ferramenta ótima, só que se você não souber usar, vai ficar muito cara”, afirmou.
Flores relacionou a questão ao próprio desafio econômico enfrentado pelas empresas que desenvolvem essas tecnologias. “Até porque eles não conseguiram ainda equalizar o custo de produção de IA com o break-even do negócio. Que é o grande desafio da IA.”
O ponto encerrou uma conversa que, embora gravada durante as atividades relacionadas ao rádio no IBC2026, acabou funcionando como uma síntese de vários assuntos observados ao longo da cobertura realizada em Amsterdã. A presença nos automóveis, a necessidade de ocupar diferentes plataformas, a disputa por afinidade e comunidades, a manutenção do controle editorial, as transformações dos negócios digitais e a adoção da inteligência artificial apareceram em diferentes conferências e apresentações realizadas durante o evento.
Esses temas também foram reunidos no grande balanço da cobertura do tudoradio.com no IBC2026, publicado após o encerramento da feira. O especial mostrou como discussões inicialmente originadas em diferentes segmentos da indústria acabaram convergindo para uma mesma questão: como preservar as fortalezas já construídas pelo rádio enquanto o meio amplia sua presença em uma jornada de consumo cada vez mais distribuída entre frequências, dispositivos, plataformas e ambientes digitais.
Assista ao bate-papo completo com Cristiano Flores, Cristiano Stuani e Daniel Starck, gravado durante o IBC2026, em Amsterdã.

arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026




