



Quinta-Feira, 12 de Fevereiro de 2026 @ 16:22
São Paulo - Obra gratuita organizada por integrantes da Rede de Pesquisa em Jornalismo Sonoro marca o Dia Mundial do Rádio e propõe reflexão sobre automação, ética e credibilidade no áudio
Pesquisadores brasileiros lançaram nesta semana o livro “Jornalismo Sonoro e Inteligência Artificial”, obra gratuita que analisa os impactos da Inteligência Artificial (IA) na produção, circulação e consumo de conteúdos em áudio. O lançamento ocorre na mesma semana em que é celebrado o Dia Mundial do Rádio (13 de fevereiro), data instituída pela UNESCO para reconhecer a relevância social, cultural e democrática do meio. Clique aqui e baixe o livro de forma gratuita.
Organizada por Nélia Del Bianco e pelo professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Alvaro Bufarah, a publicação é a primeira coletânea da Rede de Pesquisa em Jornalismo Sonoro (Radiojor/SBPJor), criada em 2019 com o objetivo de consolidar o campo de estudos do jornalismo sonoro no Brasil. O simbolismo da data reforça a proposta da obra. Se o Dia Mundial do Rádio destaca o papel histórico do meio na promoção da informação e da cidadania, o lançamento do livro evidencia que essa relevância passa, atualmente, pela compreensão crítica das tecnologias que vêm redefinindo as rotinas de produção e a experiência de escuta.
A Inteligência Artificial já integra o cotidiano de emissoras e produtoras por meio de recursos como transcrição automática, síntese de voz, edição assistida, geração de roteiros e personalização de conteúdos. Ao mesmo tempo em que amplia a eficiência operacional e as possibilidades narrativas, a automação também introduz dilemas relacionados à autoria, credibilidade, transparência editorial e vínculo afetivo — especialmente em um meio cuja força está na intimidade da voz e na construção de confiança com o ouvinte.
A coletânea reúne onze pesquisas que examinam como a IA impacta o jornalismo sonoro no Brasil e no exterior. O capítulo de abertura apresenta um panorama internacional dos riscos da automação, abordando temas como precarização do trabalho, dependência de plataformas digitais e possíveis ameaças à diversidade informativa. Outro estudo mapeia as principais ferramentas já utilizadas em redações brasileiras, apontando ganhos operacionais, mas também desafios éticos ligados à padronização de conteúdos e ao uso de bases de dados.
Casos práticos ilustram essas transformações. Um dos capítulos analisa o uso de IA na restauração e reconstrução de áudios históricos no podcast “A Ditadura Recontada”, discutindo os limites entre memória documental e recriação artificial. Outro examina a experiência da CBN com clonagem de vozes de ouvintes, levantando questionamentos sobre representatividade e diversidade sonora.

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O livro também investiga os impactos da automação no jornalismo local, em emissoras consolidadas como a Rádio Gaúcha e a Jovem Pan, além de rádios educativas. Entre os pontos destacados estão ganhos de agilidade, novas pressões produtivas e a necessidade de protocolos éticos mais claros.
A pandemia de Covid-19 é apontada como um marco acelerador da adoção tecnológica nas redações radiofônicas. Nos capítulos finais, a obra aborda experiências internacionais com podcasts produzidos integralmente por vozes sintéticas, aprofundando o debate sobre autoria, credibilidade e mecanismos de transparência na identificação de conteúdos gerados por IA.
Mais do que apresentar ferramentas, “Jornalismo Sonoro e Inteligência Artificial” propõe uma reflexão estruturada sobre a IA como nova camada de mediação no jornalismo em áudio. A tecnologia é tratada como agente que reconfigura práticas profissionais, critérios de noticiabilidade e a própria experiência de escuta. Ao final, a publicação se posiciona como referência para pesquisadores, jornalistas, gestores e estudantes interessados em compreender e orientar os rumos do jornalismo sonoro diante do avanço da automação e das transformações tecnológicas no setor.


