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Sábado, 12 de Setembro de 2026 @ 09:29

IBC2026: Plataformas e radiodifusores ampliam colaboração em novo cenário de consumo de mídia

Amsterdã - Enders Analysis aponta que escala, transformação digital e novas parcerias passam a definir o futuro do setor

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A relação entre grandes plataformas digitais e radiodifusores caminha de um período marcado principalmente pela competição para um cenário no qual colaboração, transformação digital e consolidação ganham espaço como estratégias para enfrentar a fragmentação do consumo de mídia. Essa foi uma das principais mensagens apresentadas nesta sexta-feira (11) no IBC2026, em Amsterdã, por Claire Enders CBE, CEO e fundadora da Enders Analysis. A análise mostrou que o streaming conquistou escala e mudou hábitos de consumo, mas também enfrenta desafios de rentabilidade, enquanto os radiodifusores preservam alcance, marcas, diversidade de programação e importância no financiamento da produção local. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.

A discussão ocorreu durante o keynote Too Big to Compete? Media Consolidation in 2026, que analisou como empresas de mídia estão respondendo a um mercado marcado pela fragmentação da audiência, pela disputa por escala e pela pressão por resultados. A apresentação mostrou que a busca por tamanho continua influenciando movimentos de consolidação, mas que operações maiores não significam necessariamente maior eficiência. Em um dos cenários apresentados, a combinação das operações de Warner Bros. Discovery e Paramount formaria um negócio com cerca de US$ 69 bilhões em receitas, mas acompanhado por um nível elevado de endividamento, ilustrando os desafios financeiros por trás da busca por escala.

A transformação fica evidente quando é observada a evolução do streaming. Dados apresentados pela Enders Analysis mostram que a Netflix já superou a televisão paga em penetração domiciliar tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido. Ao mesmo tempo, a empresa se diferencia de boa parte dos concorrentes pela capacidade de transformar escala em resultados. Claire Enders destacou que a rentabilidade continua sendo um desafio para grande parte dos serviços de streaming, depois de anos nos quais empresas investiram volumes crescentes em conteúdo para conquistar assinantes e estabelecer suas próprias plataformas.

Esse movimento começou a mudar à medida que o mercado passou a cobrar maior sustentabilidade das operações. A apresentação mostrou uma racionalização dos investimentos em conteúdo e uma redução de seu peso sobre as receitas diretas ao consumidor. No caso da Netflix, os gastos com conteúdo representavam cerca de 53% dessas receitas no segundo trimestre de 2020 e aparecem próximos de 41% no segundo trimestre de 2026. Disney e Warner Bros. Discovery aparecem próximas de 55%. A análise indica que simplesmente gastar mais do que os concorrentes deixou de ser visto como uma garantia de crescimento ou sustentabilidade para os serviços.

Radiodifusores preservam papel estratégico

Ao mesmo tempo em que o streaming ganhou espaço, a apresentação mostrou que os radiodifusores tradicionais continuam desempenhando funções relevantes dentro do ecossistema. A audiência da televisão linear recuou nos principais mercados europeus analisados desde 2015 e as receitas publicitárias dos radiodifusores também estão abaixo dos níveis observados no início da década passada. Porém, isso não significou o desaparecimento de sua importância na produção e distribuição de conteúdo, principalmente nos mercados locais.

Um exemplo apresentado foi o mercado francês. Em 2024, radiodifusores domésticos investiram € 1,035 bilhão em conteúdo, frente a € 362 milhões dos serviços de SVOD considerados no levantamento. Ou seja, o investimento dos radiodifusores locais foi quase três vezes superior ao realizado pelas plataformas de streaming analisadas. Enders também chamou atenção para o peso dos radiodifusores na produção de notícias, informação, entretenimento, esportes e conteúdos associados às funções de serviço público.

A diferença aparece também na composição do consumo. Entre os serviços de SVOD analisados, drama responde por 40% e filmes por outros 26%, concentrando 66% do consumo nessas duas categorias. Na televisão radiodifusores, a distribuição é mais diversificada: entretenimento aparece com 22%, notícias e atualidades com 18%, drama com 13%, esportes com 12% e documentários com 11%, além de filmes, comédia e outros formatos. A apresentação relacionou essa diversidade à capacidade dos broadcasters de atender diferentes necessidades de informação e entretenimento e de reunir grandes audiências em determinados acontecimentos.

Competição passa a dividir espaço com colaboração

É nesse ambiente que a relação entre plataformas e radiodifusores começa a ganhar novos contornos. Um dos slides apresentados no IBC2026 destacou que os radiodifusores europeus já estão colaborando entre si, com iniciativas destinadas a ampliar escala, distribuição e capacidade comercial. A apresentação citou projetos como Freely, Universal Ads e AdAlliance, além de mostrar que essa lógica de cooperação começa a ultrapassar as fronteiras entre empresas tradicionais e plataformas globais.

Entre os exemplos apresentados estão acordos envolvendo Netflix e TF1, Disney+ e ITV, Disney+ e Atresmedia e Disney+ e ZDF Studios. A própria apresentação sintetizou esse movimento ao apontar que parcerias com radiodifusores europeus fortes de televisão aberta fazem parte do futuro do setor. A tendência representa uma mudança em relação à fase inicial da expansão do streaming, quando plataformas e grupos tradicionais eram frequentemente observados apenas pela perspectiva da disputa direta pela audiência.

O YouTube também aparece nesse processo. Dados apresentados pela Enders Analysis mostram como a plataforma avançou sobre o consumo realizado diretamente no aparelho de televisão. No primeiro semestre de 2026, plataformas de compartilhamento de vídeo, tendo o YouTube como principal referência, respondiam por 10% do consumo no aparelho de TV entre o público geral. Entre crianças, a participação chegava a 33%, enquanto era de 24% entre pessoas de 16 a 24 anos, 18% entre 25 e 34 anos e 14% entre 35 e 44 anos.

Em vez de simplesmente se afastarem desse ambiente, vários radiodifusores europeus passaram a ampliar sua atuação na plataforma. BBC, ITV, Channel 4, TF1, France Télévisions, Rai, RTVE, Arte, Mediaset, RTL e outros grupos apareceram na apresentação como exemplos dessa aproximação. Enders relacionou essa presença à necessidade de maximizar alcance e facilitar a descoberta de marcas e conteúdos, principalmente entre públicos mais jovens. A estratégia, porém, não representa necessariamente a transferência das operações para plataformas de terceiros.


Claire Enders CBE, CEO e fundadora da Enders Analysis no IBC 2026 / tudoradio.com

Os números apresentados reforçam essa diferença. O Channel 4 alcança semanalmente uma média de 27,6 milhões de pessoas por meio de broadcast e BVOD, enquanto o alcance envolvendo YouTube fica em cerca de 800 mil e o exclusivamente obtido pela plataforma, em 300 mil. Na ITV, são aproximadamente 30 milhões por broadcast e ITVX, frente a 1,8 milhão envolvendo YouTube e 500 mil exclusivamente pelo serviço. A presença nas plataformas funciona, portanto, como parte de uma estratégia mais ampla de distribuição, alcance, marketing e descoberta, preservando ao mesmo tempo a importância dos ambientes próprios.

A escala ajuda a explicar essa necessidade de atuar em múltiplos ambientes. No Reino Unido, o YouTube acumulou cerca de 965 bilhões de minutos consumidos em 2025, frente a 563 bilhões da Netflix. ITV e Sky, consideradas conjuntamente no levantamento apresentado, chegaram a 1,101 trilhão de minutos. Mais do que indicar um vencedor isolado, os números mostram um consumo distribuído entre diferentes tipos de serviços e reforçam a dificuldade de uma única empresa ou plataforma concentrar toda a atenção da audiência.

A fragmentação também alcança a publicidade. Uma estimativa apresentada para o mercado britânico de publicidade em vídeo em 2026 atribui 31% do investimento a ITV Media e Sky Media, 15% a outros grupos de TV e SVOD, 15% ao YouTube e 39% ao conjunto formado por Meta, Snap e TikTok. A partir desse cenário, Enders defendeu que a regulamentação precisa acompanhar a nova configuração competitiva, na qual empresas originalmente pertencentes a segmentos diferentes passaram a disputar audiência e parcelas de um mesmo mercado publicitário.

Embora a apresentação tenha se concentrado principalmente no mercado de vídeo, o movimento observado no IBC2026 também ajuda a dimensionar uma transformação mais ampla da radiodifusão. A expansão das plataformas digitais não necessariamente elimina os meios tradicionais de distribuição, mas aumenta a quantidade de ambientes nos quais as marcas de mídia precisam alcançar o público. Produtos próprios, transmissão tradicional, streaming e presença em grandes plataformas passam a integrar uma mesma estratégia de distribuição, ao mesmo tempo em que empresas procuram preservar controle sobre marcas, conteúdo, dados e monetização.

Ao encerrar o keynote, Claire Enders resumiu a perspectiva para o futuro em três movimentos: mais colaboração, transformação digital e consolidação. O diagnóstico apresentado no IBC2026 aponta, portanto, menos para uma substituição simples dos radiodifusores pelas plataformas e mais para uma reorganização do ecossistema de mídia, no qual antigos concorrentes passam também a encontrar espaços de cooperação em busca de escala, alcance e sustentabilidade.


arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026

Tags: IBC2026, streaming, radiodifusão, plataformas digitais, Netflix, YouTube, mídia, transformação digital

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Daniel Starck
  • Daniel Starck – Jornalista, empresário e proprietário do tudoradio.com, maior portal brasileiro dedicado à radiodifusão, com mais de 20 anos no ar. É formado em Comunicação Social pela PUC-PR e teve passagens por emissoras como CBN, Rádio Clube e Rádio Paraná. Atua como consultor e palestrante nas áreas artística e digital do rádio, com participação em eventos promovidos por entidades como SET, AESP, AMIRT, ACAERT, ASSERPE, AERP e MidiacomPB. Também possui conhecimento na área de tecnologia, com foco em aplicativos, mídia programática, novos devices, inteligência artificial, sites e streaming. LinkedIn


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