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Sábado, 12 de Setembro de 2026 @ 12:09

IBC2026: Grupo australiano defende ecossistema além dos aplicativos para ampliar alcance e monetização do áudio

Amsterdã - SCA detalha estratégia do LiSTNR e aponta distribuição, dados próprios e personalização como pilares para o futuro do áudio

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Um dos maiores grupos de rádio da Austrália apresentou no IBC2026 uma estratégia que coloca o aplicativo próprio como uma parte importante da transformação digital, mas não como destino exclusivo da audiência. Durante a sessão “The Audio Revolution: A Vision for the Future”, realizada neste sábado (12), Stephen Haddad, COO da SCA (Southern Cross Austereo), detalhou a evolução do LiSTNR e defendeu que empresas de áudio precisam pensar cada vez mais em ecossistemas de distribuição, dados e relacionamento com o público, reconhecendo que o consumidor circula naturalmente entre diferentes aplicativos e plataformas. A mensagem central é que, diante de um consumo cada vez mais fragmentado, tentar concentrar toda a audiência em uma única plataforma tende a ser menos eficiente do que estar disponível nos diferentes ambientes utilizados pelo público. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.

A dimensão da operação ajuda a contextualizar a estratégia. A SCA conta com cerca de 115 estações de rádio na Austrália e, após sua integração ao Seven Group, faz parte de uma estrutura de mídia que também reúne televisão, publicação e ativos digitais. Segundo os números apresentados durante a sessão, o conjunto das operações alcança mais de 20 milhões de pessoas por semana em um país com aproximadamente 26 milhões de habitantes. No áudio digital, o LiSTNR funciona como centro de uma estrutura que reúne rádios, podcasts, streams musicais e conteúdos esportivos, conectando essas propriedades a diferentes canais de distribuição.

É justamente na diferença entre plataforma e ecossistema que está uma das principais mensagens deixadas por Haddad. O executivo argumentou que a companhia não considera realista travar uma disputa de plataforma contra plataforma com serviços globais que possuem uma escala muito superior. A estratégia adotada foi manter uma experiência própria competitiva no LiSTNR e, simultaneamente, distribuir os conteúdos onde a audiência estiver. Isso inclui ambientes como Spotify, Apple Podcasts e YouTube, além de redes sociais e outros pontos de contato com o público.

Na prática, a companhia não trata necessariamente esses serviços apenas como concorrentes. Eles também funcionam como canais de descoberta, distribuição e monetização. A estratégia parte da percepção de que o usuário não vive dentro de um único aplicativo: ele pode descobrir determinado conteúdo em uma rede social, consumir um podcast em outra plataforma, acompanhar uma rádio pelo LiSTNR e posteriormente continuar essa experiência no carro ou em um smart speaker. Uma das conclusões apresentadas por Haddad sintetizou essa visão: “focus on ecosystems, not apps” (concentrar-se em ecossistemas, e não em aplicativos).

A discussão encontra um paralelo no mercado brasileiro, ainda que em estruturas e escalas bastante diferentes. Serviços de agregação de rádios, como o próprio APP Tudo Rádio, fazem parte de um ambiente no qual uma emissora pode ser encontrada e consumida também fora de seus canais proprietários. Essa dinâmica ajuda a ilustrar a ideia apresentada no IBC2026 de que a presença digital do rádio não precisa estar condicionada a uma disputa para concentrar toda a audiência em um único aplicativo. Sites e aplicativos próprios, agregadores, plataformas de streaming, redes sociais e sistemas presentes nos automóveis podem representar diferentes pontos de acesso ao mesmo conteúdo, ao mesmo tempo em que os ambientes proprietários continuam importantes para estabelecer uma relação mais direta com a audiência.

Essa lógica também chegou à produção de conteúdo da SCA. O grupo trabalha com o conceito “create once, publish everywhere” (criar uma vez e publicar em todos os lugares). Os podcasts são desenvolvidos considerando áudio e vídeo e podem ser distribuídos simultaneamente no ambiente próprio e em plataformas externas. As redes sociais formam outra camada desse ecossistema, atuando principalmente na descoberta e circulação dos conteúdos.

Ao mesmo tempo, a estratégia deixa claro que ampliar a distribuição não reduz a importância da plataforma própria. É no LiSTNR que a SCA consegue transformar parte da audiência anteriormente desconhecida em usuários identificados, permitindo conhecer melhor hábitos, preferências e padrões de consumo. Segundo os dados apresentados no IBC2026, o LiSTNR soma atualmente 2,7 milhões de usuários conhecidos. Haddad afirmou que a companhia trabalha com a premissa de que a oportunidade de monetização proporcionada por um usuário identificado pode ser até seis vezes maior do que aquela relacionada a uma audiência sobre a qual pouco se conhece.

A construção dessa estratégia ocorreu em etapas. A jornada digital apresentada pela SCA começou ainda em 2017 e posteriormente levou ao desenvolvimento do LiSTNR. Em sua estratégia para o período de 2020 a 2026, a companhia dividiu o processo em três horizontes. O primeiro foi dedicado à construção da plataforma e à conversão de usuários desconhecidos em identificados. O segundo concentrou esforços no crescimento, migração de audiência, estabilização tecnológica e fortalecimento do conteúdo. Já o terceiro passou a priorizar geração de valor, engajamento e monetização.

Personalização, dados e fidelização

A personalização tornou-se outro pilar da estrutura. O LiSTNR combina informações fornecidas explicitamente pelo usuário, como interesses e preferências, com sinais derivados de seu comportamento. O sistema observa conteúdos consumidos, horários de utilização, padrões de navegação e duração das sessões. Haddad exemplificou que, se determinado usuário raramente termina conteúdos de 20 minutos, mas costuma concluir programas de dez minutos, esse comportamento pode ajudar a orientar futuras recomendações.

A intenção é transformar esse conhecimento em retenção e fidelidade. Uma das aplicações mostradas durante a apresentação foi o Playback, recurso que apresenta ao usuário uma retrospectiva de seu consumo, incluindo quantidade de minutos ouvidos, período preferido do dia, gêneros e podcasts mais acessados. Segundo Haddad, a iniciativa chegou a gerar um aumento de cerca de 30% no engajamento após sua disponibilização, além de estimular o compartilhamento das informações nas redes sociais.

A estratégia de dados também está diretamente ligada ao mercado publicitário. A SCA desenvolveu o LiSTNR AdTech Hub, estrutura que combina dados próprios, comportamento da audiência e informações adicionais provenientes de parceiros para aumentar a precisão das campanhas. A plataforma permite trabalhar com diferentes segmentos e características dos usuários e também realizar cruzamentos protegidos com bases fornecidas pelos próprios anunciantes.

Um dos exemplos apresentados envolve a possibilidade de um anunciante evitar campanhas direcionadas a consumidores que já são seus clientes. Uma academia, por exemplo, poderia utilizar sua própria base para suprimir esses usuários de uma campanha destinada à aquisição de novos clientes. A companhia também mostrou recursos para adaptar publicidade de acordo com fatores como condições meteorológicas e otimizar campanhas conforme os resultados obtidos. Dessa maneira, os dados utilizados para melhorar a recomendação de conteúdo também passam a sustentar novos modelos de monetização do áudio.

Outro ponto destacado foi a presença nos diferentes dispositivos. O LiSTNR está disponível na web, smartphones, smart speakers e sistemas automotivos. Haddad classificou o carro como uma nova fronteira para o áudio, principalmente diante da digitalização dos painéis dos veículos. Com isso, serviços de áudio passam a disputar visibilidade nas telas dos automóveis, aumentando a importância de integrações com ambientes como Apple CarPlay e Android Auto.

IA entra como parte do ecossistema

A inteligência artificial apareceu na apresentação como uma ferramenta incorporada à estratégia mais ampla, e não como seu único elemento central. A SCA mostrou três aplicações principais. Uma delas é o ClubCast, que utiliza IA para reunir trechos das discussões realizadas durante a semana nas emissoras sobre equipes do futebol australiano e transformá-los em novos conteúdos direcionados aos torcedores. Outra aplicação ocorre no AdTech Hub, auxiliando na otimização de campanhas. A terceira está nos processos comerciais, com automação de tarefas e busca por maior eficiência operacional.

No encerramento, Haddad condensou a visão da companhia em quatro pontos: pensar em ecossistemas em vez de aplicativos isolados; enriquecer e aproveitar dados próprios; melhorar simultaneamente a experiência da audiência e dos anunciantes; e incorporar a inteligência artificial ao conteúdo e à publicidade.

O caso australiano apresentado no IBC2026 mostra, assim, uma transformação digital que não abandona o alcance construído pelo rádio tradicional e também não depende exclusivamente de levar toda a audiência para uma única plataforma proprietária. A estratégia procura conectar esses ambientes e reconhecer que o relacionamento com o ouvinte ocorre em vários pontos ao mesmo tempo, enquanto os canais próprios ganham importância adicional por permitirem conhecer melhor essa audiência, personalizar sua experiência e ampliar as possibilidades comerciais.


arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026

Tags: IBC2026, SCA, LiSTNR, rádio, áudio digital, streaming, personalização, ecossistema digital

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Daniel Starck
  • Daniel Starck – Jornalista, empresário e proprietário do tudoradio.com, maior portal brasileiro dedicado à radiodifusão, com mais de 20 anos no ar. É formado em Comunicação Social pela PUC-PR e teve passagens por emissoras como CBN, Rádio Clube e Rádio Paraná. Atua como consultor e palestrante nas áreas artística e digital do rádio, com participação em eventos promovidos por entidades como SET, AESP, AMIRT, ACAERT, ASSERPE, AERP e MidiacomPB. Também possui conhecimento na área de tecnologia, com foco em aplicativos, mídia programática, novos devices, inteligência artificial, sites e streaming. LinkedIn


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