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Segunda-Feira, 12 de Abril de 2010 @

Viajando na Onda - 13ª edição (abril/10)

Vamos falar sério desta vez. Quero dividir com vocês algumas aflições que me acometem quando reflito sobre o rádio

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Vamos falar sério desta vez. Quero dividir com vocês algumas aflições que me acometem quando reflito sobre o rádio. Algumas coisas eu não entendo; outras entendo perfeitamente, e nos dois casos eu proponho uma análise. Exemplo daquilo que não compreendo: por que não existe uma bancada do rádio no Congresso Nacional? Sei de inúmeros deputados e senadores cujas carreiras políticas foram lançadas ou são mantidas pela reputação que construíram como radialistas. Mas por que eles não atuam de modo uniforme e incisivo na defesa dos interesses do meio que os impulsionou, como fazem as bancadas ruralista e evangélica, por exemplo, que trabalham, legitimamente, para expressar as opiniões de seus eleitores?

Se houvesse essa atividade parlamentar específica, certamente já teria sido extinta a Voz do Brasil, essa aberração que priva milhões de pessoas do direito de escolher o que ouvir e confisca 60 minutos diários em horário nobre das emissoras. E não me venham com a lenga-lenga de que o programa *é a única comunicação que alcança certas comunidades longínquas. Isso talvez fizesse sentido nos anos 1940, mas hoje? Certamente existem meios de levar informações (de preferência não oficiais) aos lugares mais distantes, sem penalizar o restante da população com um programa que quase ninguém ouve. Também não convence aquela história de que rádio é concessão pública, portanto se justifica utiliza-lo numa rede obrigatória. Fosse assim, também deveria haver uma versão para TV da Voz do Brasil. Alguém imagina a novela das 7 substituída por um programa gerado em Brasilia?

Se o rádio se mobilizasse para eleger ou organizar uma bancada mais numerosa e atuante, provavelmente seria menos complicado combater a praga das rádios piratas. Hoje os radiodifusores legalmente instalados (recolhedores de impostos e geradores de emprego, por suposto), praticamente precisam implorar para que a Anatel cumpra sua obrigação e feche as clandestinas que invadem as transmissões oficiais. Na prática, quem efetua a fiscalização são os próprios profissionais de rádio, que  precisam quase "conduzir" os fiscais até às piratas. Suspeito, sem querer enveredar pelos labirintos da política, que haja alguma coisa de ideológica nessa ausência do poder público. Aquele discurso de que "os meios de comunicação são dominados por grupos que monopolizam a informação" deve ter contaminado o aparelho estatal de um tal modo, que se preferiu adotar a tolerância com as piratas e comunitárias, em nome de uma suposta pluralidade nas comunicações. Ou seja, é a bagunça institucionalizada. Todos sabemos que as comunitárias, mesmo as legalizadas,  com algumas notórias exceções,  dependem de  anúncios vedados por lei, e são usadas para defender causas nada comunitárias. Se é preciso dar voz (e canais) aos diversos segmentos da sociedade, que isso seja feito dentro da lei, organizadamente, após discussões abrangentes nos fóruns apropriados, sobretudo no Congresso (de preferência representado em parte por parlamentares que defendam o rádio, em vez de apenas usá-lo).

Vejamos outro assunto que se repete há anos: por que o rádio é pouco valorizado publicitariamente, na comparação com meios de menor penetração, como jornais e revistas? Na verdade, o rádio quase disputa as verbas com outdoors. Nas cidades menores, até serviços móveis de alto falante competem com as emissoras. Isso é humilhante para um veículo com tanto potencial. E de quem é a culpa? Das agências de publicidade? Talvez elas tenham uma pequena parcela de responsabilidade, por priorizar campanhas em outras mídias, sem estudar com profundidade as vantagens do rádio. Mas, penso, a maior falha é mesmo do próprio rádio, por não trabalhar de modo mais profissional e eficiente. O meio pulveriza sua força em milhares de emissoras, a maioria pouco atraente para campanhas bem planejadas.  E, o que é mais triste,  difunde uma imagem de baixa confiabilidade, uma vez que as configurações artísticas mudam conforme o vento, embora devessem seguir parâmetros mais técnicos. As emissoras que adotam gestões profissionais se destacam. Mas elas se sobressaem num meio enfraquecido e disperso. Boa parte dos contatos que conheço tem uma dupla tarefa ao negociar espaço comercial: vender "o" rádio, antes de vender "a" rádio. Missão ingrata.

Talvez porque o rádio trabalhe com hábitos familiares a todos, como ouvir música, conversar ou comentar sobre futebol e política (o que todos fazemos numa mesa de boteco), existe a recorrente tendência de alguns (muitos) gestores  acreditarem que entendem o bastante dessas coisas para decidir o que suas emissoras executarão na programação. Se um empresário compra um avião, terá de contratar um piloto. Mas se assume uma rádio, certamente vai se achar capaz de avaliar qual música é boa, qual estilo de locução é mais bacana, qual o público alvo mais promissor, qual a linguagem adequada.

Assim, decisões cruciais, como escolher a orientacão musical, a plástica, a equipe, definir a grade artística,  ter uma programacão local ou integrar uma rede de rádios, tudo isso acaba sendo resolvido na base da intuição. Pesquisa? tsk... Fico impressionado com a frequência com que ainda ouço que as colocações no Ibope são "compradas". Ora, chega dessa falácia: o Ibope é sério, existe há décadas e trabalha com critérios altamente complexos. Entre seus clientes estão praticamente todas as maiores empresas do país. As pesquisas de rádio respondem por uma parte ínfima do faturamento do instituto. Alguém acredita, mesmo, que uma empresa assim arriscaria sua credibilidade e seu negócio para atender aos interesses de uma ou outra emissora? Bobagem, geralmente alimentada pelo discurso dos perdedores. Se a rádio está mal no Ibope, é mais fácil culpar as pesquisas, do que trabalhar a sério para mudar seus resultados.

Devo reconhecer que em muitos lugares a pesquisa regular de audiência nem existe, ou é muito dispendiosa para certas realidades econômicas. Ainda assim, mesmo sem essa ferramenta, o trabalho pode ser feito de modo mais apurado, mais técnico, menos amador. Eis outra fragilidade do nosso meio: não buscar a qualificação dos seus quadros. Temos alguns encontros promovidos por associações de rádio; eu mesmo já participei de vários. Geralmente são bem organizados, ótimas oportunidades para discutir a realidade e o futuro do meio. Mas ainda é pouco, inclusive porque esses congressos são voltados aos proprietários e diretores, o que é válido,  mas pergunto: e o aperfeiçoamento da mão de obra fundamental do rádio, locutores, produtores, programadores, contatos? No fim o principal atrativo desses eventos acaba sendo a exposicão de equipamentos. A exposição de idéias ainda carece de espaço.

Perde-se assim a oportunidade para discutir com profundidade o nosso modelo de radiodifusão. Temas polêmicos permanecem intocados. Por exemplo, os arrendamentos. Nem todo mundo sabe que a lei proíbe o arrendamento de rádios. Mas até as válvulas dos transmissores sabem que essa prática é usual. A licitação para obter um canal é um longo processo que exige passar  por um deserto de provações burocráticas. Os candidatos tem suas qualificações, projetos técnicos e propostas de programação examinados com rigor (para isso, claro, a burocracia torra o dinheiro dos nossos impostos). Ao final, a maioria fica pelo caminho e só é escolhido um, "o outorgado". E depois de toda essa disputa rigorosa, depois de gastar quilômetros de papel e litros de tinta, a rádio é arrendada ou vendida num "contrato de gaveta" em que o novo (e ilegal) proprietário/arrendatário nem aparece nos registros. E todo mundo finge que isso não acontece. É ridículo, vergonhoso. Ou se acaba com essa prática de república de bananas, ou se legaliza de uma vez o processo.

Faltam mais e bons debates para unificar os radiodifusores, promover cursos de aperfeiçoamento profissional e empresarial, estabelecer um contato mais estreito com o meio publicitário. Este teria mais a investir, e o rádio muito mais a oferecer, se o trabalho fosse mais qualificado e consistente. Os resultados, em vez de  pulverizados  num mar de frequências, transformariam o meio numa potência, não em watts, mas em influência. E o rádio, indispensável para milhões de ouvintes, seria imprescindível também para o mercado publicitário e para repercussão dos grandes temas nacionais. Antes de propagar seu sinal antena afora, o rádio precisa propagar profissionalismo e autocrítica estúdio adentro. Modesta opinião de alguém que considera este veículo fascinante, e ao mesmo tempo frustrante.

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Colunista
Lui Riveglini

Lui Riveglini é atualmente locutor de comerciais, documentários e videos institucionais, foi voz padrão do canal AXN por 13 anos e também atuou como consultor artístico da Rede Transamérica de Comunicação. Foi apresentador das rádios Transamérica (várias vezes), Jovem Pan FM e Bandeirantes, entre outras. Implantou e dirigiu a Rede Mix de Rádio.



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