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Quinta-Feira, 30 de Dezembro de 2010 @

Carlinhos, Paulinho e o rádio

Ali, diante do rádio, era só magia. Sons, chiados, musicas e a voz que apresenta, embala e sugere novos mundos. Voz sem rosto, moldada pela imaginação de quem ouve
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Naquela sala cada um cuidava da sua vida. O Tio Oscar contando suas últimas peripécias no escritório para uma platéia educadamente desatenta.

Do outro lado as meninas sentadas a volta da mesa sorriam disfarçadamente enquanto cochichavam sabe se lá o que.

Cada um a seu modo, no seu canto, com suas conversas e preocupações.

Só quem parecia distante era o Carlinhos. Ouvido grudado na caixa de som, olhos atentos e a mente distante. Entre uma musica e outra, a voz do locutor capturava a atenção do adolescente.

Ali, diante do rádio, era só magia. Sons, chiados, musicas e a voz que apresenta, embala e sugere novos mundos. Voz sem rosto, moldada pela imaginação de quem ouve, que se apresenta de acordo com a projeção de quem está do outro lado.

Do que vale as histórias do Tio Oscar ou as conversas bobas das menininhas sorridentes se eu tenho o rádio? - pensava Carlinhos.

Sentado no chão diante do aparelho ele não imaginava o que viria depois. Não sabia da dificuldade em conseguir seu primeiro emprego e como as coisas aconteciam do outro lado. O salário baixo, as madrugadas trabalhando, os fins de semana e feriados dentro de estúdios gelados, a falta de reconhecimento constante, presente, latente no dia a dia de quem sempre quis dar seu melhor.

Não. Para o menino aquela era uma realidade distante que parecia nunca chegar.

Ele não imaginava qual seria a sensação de querer soltar a criatividade e ser podado. De aprender conter sua ousadia em um mundo limitado muitas vezes por gente pequena e cheia de ego.

Conheceria muita gente boa, faria muitos amigos e se realizaria em outros tantos momentos, mas isso não diminuiria o desconforto de lidar com questões mesquinhas que, aos poucos, sem perceber, minariam seu primeiro amor.

Hoje, anos depois, Carlinhos não sabe explicar quando o sonho virou trabalho. O desafio passou a chamar rotina e os sonhos... Bem, os sonhos guardou para si mesmo em algum lugar escondido.

Enquanto a musica termina, um reflexo faz com que Carlinhos retorne a realidade e deixe o Tio Oscar lá atrás, no passado. Em milésimos recobra a consciência, esquecendo-se do momento saudosismo, afinal de contas, isso é coisa de velho.

Já não lida com fantasias lembrando-se que sonhos não pagam salários.

Houve um tempo onde tudo parecia mágico. Onde cada som parecia um portal que levava para outros mundos. Era tempo de imaginação fértil, mente fresca e aberta, pronta para ser surpreendida, para viajar ao acorde de cada musica.

Mas parece que esse tempo não existe mais. A música acabou, "On" do microfone apertado mecanicamente, voz tecnicamente feliz, dicção clara: "Essa é a novidade da programação...."

Carlinhos fala. Sem vida, sem pulso, sem amor. Ele não sabe que do outro lado, em uma sala qualquer, deitado diante da caixa de som, Paulinho presta atenção. Seus olhos divagam e sua mente viaja, é tudo mágico, especial, estimulante.

Carlinhos termina sua fala e dispara os comerciais. Ele nem presta atenção. Toma um gole d água e atende ao telefone.

Paulinho se excita. "É isso que eu quero fazer!" - Pensa enquanto não desgruda do aparelho.

Ele não sabe que Carlinhos, seu ídolo, já esteve lá. Parece que foi sempre fácil e que o radialista vive realizado.

Talvez um dia chegue sua vez. Quem sabe daqui alguns anos não estará diante do mesmo microfone?

Ainda é cedo e o máximo que compreende é que, independente do que seja o rádio é um mundo mágico, que trabalha a imaginação e alimenta sonhos com músicas e vozes, capturando corações e privilegiando aos que, através dele, cativam a mente de Paulinhos, Carlinhos, Isabellas, Marias....

"Fico por aqui, um grande abraço e até amanhã !" Saúda tecnicamente Carlinhos.

"Até Amanhã"- responde Paulinho, cheio de esperanças e o desejo de que assim seja.

"Amanhã estarei aqui, Carlinhos. E você tem sido minha inspiração."

Carlinhos fecha o microfone e lamenta ter que voltar amanhã. Ele não sabe que ganha mais do que salário e que a cada palavra cria mundos, alimenta esperanças e faz o dia de quem está do outro lado melhor.

Mas infelizmente para ele, isso é apenas um detalhe.


Tags: Flavio Siqueira

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Colunista
Flavio Siqueira

Flavio Siqueira é escritor e radialista. www.flaviosiqueira.com



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