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Terça-Feira, 17 de Maio de 2011 @

Fé no rádio

Não basta a infinidade de piratas, o comércio da fé invade as oficiais também. Promessas de bênçãos financeiras...
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Outro dia, no carro, enquanto cruzava a estrada, passeava pelo dial procurando ouvir um pouco de tudo.
"Scan" acionado : "Você está sofrendo? Quer mudar de vida? Crescer na vida e nos negócios? Nossa igreja ajudará você". Mais adiante no dial : "Foi quando resolvi contribuir com um pouquinho, mal tinha para o ônibus, mas foi aí que Deus me recompensou". Em outra frequência: "Então amados irmãos, venham! Presença confirmada de Jesus Cristo". Desliguei o rádio.

Fiquei imaginando como deve ser tentador para um dono de rádio que, desgastado com problemas financeiros, queda de faturamento, problemas com funcionários, recebe a proposta de "alugar" sua rádio a um grupo religioso.

Ainda que a lei não permita é dinheiro fácil, em grande quantidade, para ficar em casa e não ter mais preocupações.
Não basta a infinidade de piratas, o comércio da fé invade as oficiais também. Promessas de bênçãos financeiras, "desmanche" de trabalhos de macumba, "descarrego", sal grosso, campanha dos 7 não sei o que, dos 350 pastores e por aí afora.

Não me preocupo só com os profissionais que perdem os empregos e seu campo de trabalho muitas vezes em cidades com pouquíssimas opções, como também com aqueles que, por desespero, se deixam levar pela força de persuasão que o rádio proporciona.
Já trabalhei em rádio religiosa e sei que tem muita gente boa lá. Bons profissionais, bem intencionados que dependem financeiramente daquele trabalho. Não quero generalizar. Tem muita gente que leva o trabalho a sério, confundindo sua profissão com missão.

Aliás, o rádio tem esse forte elemento que de certa forma nos transforma em "missionários", seja qual for a missão, seja qual for a mensagem. O problema é que isso fica perigoso quando o sentimento é messiânico, excludente, forçado e arrogante.

Aí entram "sacerdotes" com suas mensagens prometendo céu na terra para os que "ouvirem a voz de Deus" manifesta pela dele, e demonstrarem sua fé obviamente doando algum dinheiro. A mensagem não se detém a uma emissora, mas, por exemplo, em São Paulo, são diversas entre oficiais e piratas, às vezes uma se sobrepondo a outra.

Minha intenção nesse texto está longe de criticar a fé de quem quer que seja. O que falo aqui é sobre o comercio da fé através do rádio.

Não conheço um dono de rádio que não tenha recebido uma tentadora proposta pra arrendar sua emissora. E por que o assédio é tanto? Boa intenção e interesse em propagar uma fé sadia? Não consigo acreditar nisso.

Se hoje temos que nos esforçar para provar por aí que nosso veículo é uma mídia confiável, em parte é porque estamos perdendo o que resta de credibilidade a partir do momento em que abrimos nossa programação para esse tipo de pregação.
E o pior é que as pessoas compram o pacote como se fosse "mensagem de Deus" e, quando se decepcionam, perdem a fé, a vontade de viver e o que restava de dignidade.
Não sou contra o uso do veículo para expressão de idéias, inclusive religiosas, mas é fundamental que exista verdade.

Hoje de manhã, ouvi no carro um pastor fazendo testemunhal de produto pra emagrecer. Não consigo entender como alguém pode usar o rádio pra transferir a credibilidade que goza como "homem de Deus" a um produto que nem sabe direito se é confiável.

E no rádio isso acontece muito. Ganha-se hoje, faz-se contratos temporários, mas os efeitos são imensuráveis. Efeitos na emissora que arrenda, nas pessoas que ouvem e no rádio como um todo.

Lembro-me de um "missionário" que, antes de ir ao microfone, comentava debochadamente com o operador: "Quer ver como se engana o povo?", e com voz piedosa e tom choroso dizia ao abrir o microfone: "Deus me disse que você deve contribuir com 12 reais. Porque 12? Não sei amado... É mistério de Deus". Ninguém me contou, esse (e outros) eu vi.

Rádio é empresa e negócio sim, precisa de recursos para sobreviver e sabemos que os dias são difíceis, mas precisamos ir tão longe? Será que inventar um deus que ama o dinheiro e só recompensa quem doa é o ideal? Criar mecanismos psicológicos que geram medo e dependência, sem a preocupação de como isso pode frutificar em gente que não está nos seus melhores dias deixa de ser problema nosso porque temos contas a pagar?

É responsabilidade de todos nós. Nós que fazemos, ouvimos e amamos o rádio.

Sei que no meio disso tudo tem gente de boa fé. Gente que está no rádio com coração puro e imbuído de falar sua mensagem, preocupado com quem ouve. Mas esses estão em minoria, tem menos dinheiro e menos poder; aparecem menos.
Tenho medo que amanhã, à medida que a grana encurtar, mais e mais empresários se rendam a essa verdadeira tentação e, aos poucos, esse tipo de rádio predomine.
Que Deus nos ajude e nos dê consciência de até onde podemos ir. Que o rádio volte a ter credibilidade e possa dizer não a esse tipo de oferta.

Ao escolher o rádio como profissão e veículo que te gerará sustento, pense nisso. Até que ponto sua profissão se confunde com quem você é? Até que ponto o meio em que você está inserido representa um pouco daquilo que acontece dentro de você?

É por isso que não dá para fechar os olhos diante de situações como as que comentei aqui. Ver o rádio se transformando em balcão de negócios de "vendilhões do templo" não pode gerar em nós conformismo, mas servir de reflexão de onde estamos errando e do que podemos fazer.

Pense nisso.


Tags: Religiosas

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Colunista
Flavio Siqueira

Flavio Siqueira é escritor e radialista. www.flaviosiqueira.com



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