



Quinta-Feira, 19 de Março de 2026 @
Hélio Ribeiro provocava uma reflexão sobre o propósito do rádio — não apenas como tecnologia, mas como missão. Nos anos 70 e 80 o mundo vivia profundas transformações tecnológicas e sociais, e os meios de comunicação — rádio, televisão e imprensa — até então, mediavam os grandes temas que impactavam a sociedade, traduzindo e facilitando uma leitura das realidades.
O século 20 não foi fácil para ninguém em qualquer canto do planeta. Com todas as soluções e delícias da modernidade, a quebra de paradigmas e os atritos também chegaram na mesma velocidade e brutalidade. Uma grande guerra, revoluções, ditaduras, absolutismos, outra grande guerra, muitas outras guerras pelo globo. As tensões da Guerra Fria, conflitos geopolíticos, racismo, sexualidade, feminismo, família, trabalho, direitos, mudanças comportamentais e debates sobre sociedade e o mundo justo que sonhamos. Haja literatura para contar.
O rádio, pela sua abrangência e acessibilidade, sempre esteve presente em todos os lugares, ajudando a interpretar um mundo cada vez mais complexo, ao vivo, presente, uma crônica do cotidiano, uma literatura com pressa. Todos os atores do rádio pelo mundo são testemunhas oculares da história, formando e buscando consensos, falando e ouvindo, interpretando.
Alguns capítulos da história, justamente os mais tristes, permanecem na grade do noticiário, preenchendo a programação com violência e sangue, como se a maioria da humanidade não estivesse produzindo bens para o espírito, além dos bens do consumo das economias. Será que não podemos inverter a hierarquia do noticiário e do conteúdo das nossas programações ? Os algoritmos são isentos? Eles sabem mesmo mais da gente do que nós mesmos para determinar o conteúdo que queremos?
Ao dizer que o rádio era “a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo”, Hélio Ribeiro convocava os profissionais do meio a exercer o verdadeiro papel da comunicação de massa: ajudar a compreender cenários, mediar conflitos e promover uma cultura de conciliação, justiça e paz, através do diálogo, essencial no meio rádio.Será que a boa notícia não tem relevância diante da insegurança, do medo, violência, indignação?
O mundo continua marcado por tensões políticas que violentam liberdades, tiranias que em nome da paz promovem destruição sem oferecer solução, quebram pactos, violam tratados, soberanias. Neste cenário a vida vale quase nada em comparação ao bloqueio do fluxo de petróleo, que é mais determinante para parar uma guerra do que a perda devidas inocentes, crianças, velhos, mulheres, trabalhadores. A polarização ideológica e o extremismo são fenômenos orquestrados que massacram a frágil democracia utilizando a desinformação, a distorção, a fake news como forma de influenciar grupos, relativizar verdades e contaminar a psiquê social, adoecendo a sociedade por dentro mesmo em seus núcleos primários, as famílias.
O rádio tem a oportunidade de liderar uma comunicação ativa, presente e viva para atingir corações e mentes, como sempre fez;ser uma comunicação positiva naelaboração de um presente complexo e inspirar para um futuro baseado no sonho sonhado para a humanidade. Temos no DNA o sonho e a fórmula afetiva para tocar esse projeto de comunicação como um propósito, muito acima dos serviços e utilidades públicas que presta.
Hoje, ligamos o rádio o e encontramos guerras, polarização, extremismos, corrupção, banalidades e desinformação também em grande escala. O conflito tornou-se estratégia de audiência nas redes sociais. E não podemos entrar nessa. Medo, indignação e ódio são explorados para prender atenção, o que beneficia interesses políticos e ideológicos, enquanto a saúde mental coletiva se deteriora, como epidemia mundial. Cerca de 700 mil pessoas cometeram suicídio no ano passado no mundo. No Brasil cerca de 15 mil. Essa dor extrema das vítimas não é uma questão individual, é social. Atinge pessoas de todas as idades e perfis socioeconômicos.
O mundo não está um bom lugar para se viver para muitas pessoas. Digerir violências, inseguranças, falta de perspectivas, dificuldades econômicas, exigências diversas, cobranças, ser o único culpado da infelicidade, como se o sistema fosse perfeito, não está fácil e estamos cada vez pior nessa escala de desinformação. Cada vez mais pessoas tem dificuldades de lidar com a realidade e nem conseguem expressar isso direito.
Nesse cenário, os veículos em geral parecem ignorar seu propósito fundamental: fortalecer valores humanos e contribuir para uma sociedade mais equilibrada e justa. O rádio pode e deve ocupar o lugar de essencial para a criação de um clima social de diálogos e conciliação. Com a multiplicação das mídias e o caos informativo das redes sociais, a pergunta permanece: o rádio continua sendo uma oportunidade perdida de melhorar o mundo? Estamos isentos de qualquer responsabilidade nos acontecimentos de nosso tempo, do nosso lugar, nosso território?
Ao contrário, o rádio pode ser a chave para inverter essa lógica pela sua proximidadeafetiva do ouvinte, o alcance empático da comunicação falada e escutada, a abrangência de audiência em todos os perfis e a própria relevância do meio rádio.
O rádio pode e deve assumir um papel inspirador e conciliador, estar equidistante nas polarizações — mediando debates, atenuando tensões e oferecendo informação responsável e dialogando com as diferenças e desafios da atualidade. Recuperar esse propósito é também um caminho para renovar a relevância comercial do rádio paradiferenciar-se das redes sociais, associando anunciantes, marcas e produtos à uma comunicação ética e de valor, orientada e positiva.
Quando a expressão nomeada como “rage bait” — conteúdo feito para provocar raiva e engajamento — define estratégias de retenção de audiência nas plataformas digitais, o rádio pode dizer não e escolher outro caminho. Devemos assumir o nosso caminho natural, de origem no propósito da comunicação social, que é onde se enquadram as emissoras de rádio, ao contrário do objetivo das big techs, que fogem dessa responsabilidade social. Mais do que resistência este pode ser nosso manifesto para melhorar o mundo a partir do nosso microfone.
Parafraseando Hélio Ribeiro, um dos inspiradores da minha carreira, “o rádio não é amaior oportunidade perdida de melhorar o mundo — mas a melhor oportunidade que ainda temos para fazer alguma coisa.
Profissionais — comunicadores, diretores, redatores, repórteres e programadores — têm uma missão: colocar o ouvinte em primeiro lugar, o slogan clássico dos últimos 50 anos. Todos os dias, diante de um microfone, existe a chance de melhorar o mundo de alguém que escuta. E, esse alguém vai ajudar a melhorar o mundo que todos compartilhamos.


Uma das principais vozes da propaganda brasileira nos últimos 30 anos- Atuou em várias emissoras de FM de São Paulo e como Voice-Brand de Alpha FM, Nova Brasil, Transamérica, Metrópole e várias emissoras pelo Brasil. É palestrante e autor dos livros Acertar é Humano e Feliz dia novo. Palestra sobre Futurabilidade- o futuro que inspira.