




Quinta-Feira, 02 de Abril de 2026 @
Diretor executivo de programação, Erasmo Magno destaca trajetória da emissora desde 2020 e reforça a importância da experiência humana no rádio para a construção de projetos sustentáveis e relevantes
Posso discordar de muitas visões e estratégias de renomados gestores radiofônicos, mas acredito que existe uma crença unânime. É impossível fazer uma rádio sem praticar uma escuta atenta. E, por “escuta”, não me refiro apenas a ouvir o rádio em si. Falo de escutar tudo, o ouvinte, o que ele consome além do rádio, os sinais do mercado, os movimentos culturais e as mudanças de comportamento.
Ao meu redor, em ambientes profissionais, familiares e sociais, percebo um fenômeno curioso. Todo mundo fala com facilidade sobre comunicação digital, muito em função do acesso simples às plataformas. Mas, ao mesmo tempo, muita gente está desaprendendo a prestar atenção nas pessoas pela via mais original de todas, o encontro físico, a convivência real, o olhar, o gesto, o silêncio.
Foi dessa inquietação que nasceu a minha iniciativa de permanecer na escuta para analisar comportamentos, filtrar conceitos, quebrar preconceitos, estudar o consumo de outras mídias, observar movimentos, tendências e surgimentos, desenvolvendo um pensamento de interface entre a vida real (offline) e aquilo que é projetado no ambiente digital.
Essa postura me levou a compreender que informar bem exige, antes de tudo, estar disposto a aprender continuamente. E foi nesse caminho que passei a incorporar, de forma natural, as novas metodologias de gestão, de negócios e as ferramentas de inteligência artificial à rotina de trabalho, não como um modismo, mas como extensão de uma prática que já vinha sendo construída há anos.
Desde 2012, o caminho que percorri foi além das demandas específicas do rádio. Passei a buscar conhecimento em áreas que ampliariam minha visão de forma estratégica. Especializei-me em gestão de projetos e comportamento de consumo de mídia, para entender como o ouvinte se relaciona com os diferentes canais e como posicionar uma emissora de forma relevante. Aprofundei-me em métodos de gestão de processos produtivos, o que me permitiu estruturar rotinas com mais eficiência e previsibilidade. E dediquei atenção especial à gestão pública, compreendendo como surgem e circulam os recursos públicos e navegando pelos processos técnicos e regulatórios que envolvem migrações de emissoras do AM para o FM. Esse olhar mais amplo sobre gestão foi o alicerce que deu sentido à imersão tecnológica que viria a seguir. Já nesse mesmo período, utilizava recursos de plugins que emulam processadores de áudio (compressores, máquinas de efeitos, Dolby Atmos, reverbs e ambientação), dentro de DAWs que permitem experiências ricas em edição e mixagem. Essa combinação entre visão de gestão e domínio técnico-sonoro me fez entender, na prática, o quanto a tecnologia, quando sustentada por uma base sólida de conhecimento, é capaz de criar uma conexão única entre o áudio e o ouvinte humano, algo que, com sensibilidade e método, alcança a emoção.
Do ponto de vista de gestão, o desafio é construir time. Como atrair pessoas para compor uma equipe que compartilhe essa visão, mas que também tenha como valor essencial a vida real. Gente que queira fazer comunicação com arte, voz, som, ritmo e harmonia, para transformar o rádio em um veículo capaz de comunicar tudo, seja música, esporte, jornalismo ou entretenimento, com relevância e utilidade para quem nos ouve.
Isso exige sacrifício de tempo, estudo contínuo, desenvolvimento de inteligência emocional, disposição para aprender e reaprender tecnologias, metodologias e práticas de outras áreas. Exige gestão de tempo e recursos, resiliência diante do mercado e coragem para arriscar, muitas vezes, em relativa solidão.
Fazer rádio assim é transformar a emissora em um instrumento afinado, pensado para ser ouvido e preferido, não apenas “captado por acaso”. É um trabalho muito parecido com o de um maestro que, além de reger a orquestra, não pode virar as costas para o público.
O estilo de gestão, a forma de reger, faz diferença. Mesmo quando a plateia não conhece ou, a princípio, não gosta do repertório, ela pode decidir ficar até o final porque se encantou com os arranjos, com a harmonia e com a sonoridade. Em rádio, isso se traduz em curadoria, linguagem, identidade sonora, coerência editorial e respeito ao ouvinte.
Não recorro a argumentos filosóficos para justificar o sucesso da Jovem Pan News Natal nesses seis anos. O que quero dizer é mais simples e, ao mesmo tempo, mais sério. A comunicação por áudio é, por natureza, analogicamente humana.
Quem quiser construir projetos de rádio sustentáveis e relevantes no longo prazo precisa compreender essa dimensão antes de pensar em qualquer estratégia digital. O digital é fundamental. Mas, sem sensibilidade e sem respeito à experiência humana do ouvir, é apenas mais um canal.
Neste ano de 2026, celebro 6 anos da Jovem Pan News Natal agradecendo a quem nos acompanha, a quem constrói esse projeto comigo e ao rádio, essa “velha” tecnologia que continua sendo, quando bem cuidada, um dos espaços mais sofisticados de conexão humana que existem.

