



Quarta-Feira, 08 de Abril de 2026 @
Datena na rede pública reacende o dilema entre ampliar alcance e preservar a qualidade da informação

Surpresa só pra quem quis. Os primeiros dias do programa diário “Alô, alô Brasil” com Jose Luiz Datena na Rede Nacional de Rádio — da EBC — trouxeram as novidades de sempre. O apresentador costura as entrevistas do programa com minutos de suas verrinas — vamos lá, poupando um gúgol: “censura violenta em discurso público, acusação contundente. Por extensão, estilo polêmico e virulento, característico de certa imprensa de opinião”.
Em relação aos programas policiais que o levaram do topo de audiência até ladeira abaixo na Rede TV, depois de sua espetaculosa passagem pela política, as diferenças estão na pauta. As entrevistas com membros do governo e da política substituem as broncas das delegacias. Apesar de algum alinhamento às políticas do governo federal, ele continua proclamando suas amizades com personagens de todos os matizes: Doria “me chamava todo dia para almoçar”, Tarcísio, “gosto muito dele, mas...” e a promessa de que sua metralhadora giratória vai atirar para todos os lados. Eventualmente no próprio pé.
Este ajuste de perfil do programa permite que ele aborde temas variados, dos problemas de energia elétrica de São Paulo aos conflitos internacionais, sempre com uma opinião a respeito. Aí, num programa com duas horas de duração, mesmo recheado de repórteres e correspondentes da rede e o apoio do grande jornalista investigativo Agostinho Teixeira, há tempo generoso para ele solar ao microfone.
E neste tempo dedicado ao improviso, ele pode cumprir a missão esperada de trocar em miúdos assuntos relevantes para um público mais amplo e menos informado. Ou, numa respirada, pode bordejar as águas rasas do senso comum. Aí passamos pelo que pode ser resumido no chavão “conversa de motorista de taxi”, em que qualquer grande problema tem uma solução fácil, muitas vezes passando por um cacoete autoritário e um fecho irrevogável: “Esta é a verdade!”.
A troca de emissoras comerciais pela rede pública, incluindo programa de TV, não afeta nem mesmo o mau humor das críticas no ar ao funcionamento da técnica e qualquer outro incômodo. No primeiro programa, já deu uma enquadrada no presidente da EBC, André Basbaum, por dar um pitaco fora do ar.
Importante falar sobre a decisão de trazer Datena para a rede pública de rádio e TV. Lançada pelo presidente Basbaum, da EBC, e abençoada pelo presidente Lula, a contratação namora com a necessidade de as rádios da Rede Nacional romperem a barreira do silêncio, encorpada por anos de programações modorrentas, oficialescas, nascidas nos anos 60 e pouco mudadas. As audiências minúsculas dão repasto a quem acha que comunicação pública é desperdício de dinheiro e apoia a privatização da EBC.
A Rádio Nacional, coberta de glórias da época de ouro, é repetidamente citada, mas nunca seguida. A Rede Nacional de Rádio, até muito pouco tempo atrás, era um arranjo capenga, com as emissoras herdadas do antigo sistema do Estado Novo de Getúlio Vargas, baseado na Nacional do Rio, num frankenstein costurado a rádios de Brasília, do Amazonas e surpreendentemente, mas sem surpresa, uma rádio no Maranhão, criada na época do Sarney.
Esta configuração podia fazer algum sentido no tempo do AM, quando um transmissor potente resolvia o problema. Nos tempos de FM, a lógica é outra: regional, pulverizada, dependente de presença física. Com a abertura da Nacional de São Paulo e Recife e a afiliação de mais de uma centena de emissoras públicas país afora, a rede ganha alcance. Mas ainda está longe do que poderia ser uma rede pública nacional de verdade.
Como conteúdo, há um imenso espaço a ser explorado entre a informação, atualização e prestação de contas de governos e o pernicioso discurso chapa-branca. A Comunicação Pública deve realmente passar informações de real utilidade pública que a mídia comercial não tem espaço ou interesse de veicular. Mas é obrigação, isso mesmo, obrigação, fazer isso de maneira simples e eficiente.
Então, Datena cabe no diagnóstico de que a informação pública de qualidade precisa furar a bolha e chegar a públicos maiores?
Caber, cabe. Ele é fluente, hábil, sedutor e não invade o pantanoso terreno das fake news, mesmo alargando bem as métricas habituais para a comunicação pública. Mas o quanto ele efetivamente informa e o quanto deforma, quando tenta resolver problemas a cabeçadas?
A ver o que vai rolar. Se ele, puxando a equipe, consegue estabelecer uma comunicação aberta com quantidades crescentes de público, levando mais informação e serviço, do que a mesma velha opinião formada sobre tudo. Ou a dose do livre pensar sensacionalista vai vencer. E o remédio vira veneno.
E há que pensar no precedente. Pois quem sabe próximos presidentes, da República e da EBC cismem que o horário pode ser coberto com outros perfis. De apresentadores populares ou influencers ou políticos fluentes, daqueles que rompem pra baixo o limite do fato. E aí, esta será a verdade?
Por Luiz Henrique Romagnoli, jornalista, radialista, desenvolveu e dirigiu o “Café com o Presidente’’ e coordenou a mudança editorial e plástica da “Voz do Brasil” em 2003. Trabalhou junto e gosta de Agostinho Teixeira, excelente repórter investigativo. Não conhece Datena pessoalmente. Ah, faz palestras e consultoria em comunicação pública, mas não quer emprego público.
