



Sexta-Feira, 10 de Abril de 2026 @
Analiso a recorrente previsão sobre o fim do rádio e defendo a força do meio a partir da sua capacidade de conexão humana, adaptação tecnológica e relevância no cotidiano do público
A resposta é simples: não.
Na verdade, a ideia de que o rádio está com os dias contados é uma das maiores ilusões do mercado. Sempre que surge uma nova tecnologia, alguém decreta o fim do rádio. Foi assim com a televisão, depois com a internet, com os streamings, com as redes sociais e agora com a inteligência artificial.
Mas o rádio continua aí.
Porque o verdadeiro rádio não é apenas uma frequência no dial, um aplicativo ou uma playlist automática. O rádio é conexão. É companhia. É gente falando com gente.
Por mais que o comportamento do público mude e que as novas tecnologias transformem a forma de consumir conteúdo, existe algo que continua insubstituível: o fator humano.
Uma emissora de rádio, seja FM ou online, não nasce apenas para gerar receita. Claro que o retorno financeiro é importante. Mas, acima de tudo, existe um propósito. Existe a vontade de informar, entreter, emocionar e criar vínculo com quem está do outro lado.
E é justamente aí que muitas emissoras acertam — ou erram.
Uma rádio forte precisa de profissionais competentes nos bastidores, comunicadores que saibam conversar de verdade com o público e uma gestão capaz de unir tudo isso em torno de uma identidade.
Mas as plataformas digitais vão acabar com o Rádio! Não!! Elas podem acabar com um rádio malfeito, sem personalidade e sem propósito. Mas não com o rádio de verdade.
Nunca estivemos tão conectados. Temos smartphones, redes sociais, streaming, podcasts, inteligência artificial e informação em tempo real.
Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão distantes.
Hoje, muita gente prefere mandar mensagem em vez de ligar. Não há paciência para ouvir um áudio inteiro: ele é reproduzido em velocidade 2x. As pessoas querem escolher o que vão consumir, quando vão consumir e da maneira que preferirem.
Mas, se o imediatismo dominou tudo, por que tanta gente voltou a procurar experiências mais humanas e analógicas?
O crescimento do mercado de discos de vinil é um ótimo exemplo disso. Em pleno auge do streaming, o público voltou a comprar algo físico, a ouvir um álbum inteiro, a valorizar a experiência.
Isso não significa que as pessoas cansaram do streaming. Significa apenas que existe espaço para algo mais próximo, mais humano e mais autêntico.
E o rádio ocupa exatamente esse lugar.
Até gigantes da tecnologia perceberam isso. A própria Apple, além de oferecer milhões de músicas em seu serviço de streaming, criou rádios online com estúdios, locutores, entrevistas e programação ao vivo. Ou seja: entenderam que apenas apertar o play em uma música não é suficiente.
As pessoas querem curadoria. Querem personalidade. Querem sentir que existe alguém do outro lado.
Agora imagine uma viagem de carro. Você está em uma rodovia e encontra um grande congestionamento.
O aplicativo de GPS informa apenas que existe uma ocorrência mais adiante e que o atraso será de 30 minutos.
Mas o que realmente aconteceu?
Foi um acidente? Há um animal na pista? A rodovia está interditada? Existe algum desvio?
É nesse momento que o rádio mostra sua força.
Basta ligar em uma emissora local para receber informação imediata, contextualizada e, muitas vezes, mais útil do que qualquer aplicativo.
Em São Paulo, por muitos anos, existiu uma emissora de Rádio FM dedicada exclusivamente às condições do trânsito. Para quem passava horas na estrada, ela era tão importante quanto o próprio GPS.
O aplicativo mostrava o problema. O rádio explicava o que estava acontecendo.
E essa diferença continua existindo.
Vou contar uma história que resume perfeitamente o que é o rádio.
Durante um programa da BestRadio Brasil chamado “Zoeira Geral”, havia um quadro de improviso em que eram feitos trotes para números aleatórios.
Em uma dessas ligações, atendeu um senhor extremamente irritado. Ele desligava o telefone repetidas vezes e, em seguida, a ligação era refeita.
Até que, em determinado momento, eu disse:
“Senhor, aqui é da Rádio XXXX e o senhor está participando do Show da Tarde. Seu número foi escolhido aleatoriamente. O senhor parece irritado. O que aconteceu?”
Naquele instante, o homem respondeu que estava nervoso porque estava saindo para um velório.
Pedi desculpas, disse que não iria incomodá-lo e que ligaria para outra pessoa participar da promoção.
Foi aí que tudo mudou.
Ele imediatamente mudou o tom de voz, aceitou participar da brincadeira e entrou na dinâmica ao vivo. O desafio era impossível: repetir um trava-língua sem errar.
Ele não conseguiu.
Mas isso era o de menos.
Durante cerca de 15 minutos, aquele homem esqueceu, ainda que por pouco tempo, o dia difícil que teria pela frente. No fim da ligação, já estava sorrindo, brincando e mandando abraços.
É isso que o rádio faz.
O rádio informa, diverte e acompanha. Mas, acima de tudo, transforma pequenos momentos da vida das pessoas.
Nenhum algoritmo faz isso da mesma maneira.
O rádio só acaba quando deixa de ser humano.
Enquanto existirem comunicadores capazes de criar conexão, histórias que façam companhia e emissoras dispostas a entender o seu público, o rádio continuará vivo.
Talvez ele mude de plataforma. Talvez saia do FM e vá para o aplicativo, para o streaming, para o carro conectado ou para qualquer outra tecnologia que ainda venha.
Mas a essência continuará exatamente a mesma, porque o Rádio em si nunca foi sobre transmissão.
Sempre foi sobre relacionamento.

