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Sábado, 25 de Abril de 2026 @

Eldorado: o problema nunca foi música.

Vejo o fim da Eldorado como resultado de uma falha de estratégia, e não do avanço do streaming. O rádio continua relevante, mas precisa ter função clara, identidade e integração dentro de um projeto maior. Sem isso, perde espaço

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O anúncio do fim da Rádio Eldorado atribui a plataformas como Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube a responsabilidade por um novo cenário de consumo de música. É uma explicação conveniente, mas incompleta e desonesta.

O streaming mudou o jogo, sem dúvida. Mas não elimina o valor do rádio. Elimina o rádio que não sabe qual é o seu papel.

A questão central não é tecnológica. É estratégica. Qual era a função da Eldorado dentro do Grupo Estado?

Em um ambiente de mídia integrado, uma emissora não pode ser apenas um canal de áudio. Precisa ser plataforma de marca, conteúdo e conexão. A Eldorado tinha identidade, e das mais fortes. Faltou transformá-la em ativo central de amplificação do Estadão em projetos multimeios, eventos e experiências.

O histórico recente da Rádio Globo ajuda a entender.

Em 2014, o Sistema Globo de Rádio tomou uma decisão emblemática ao encerrar a Beat 98, então uma das rádios mais ouvidas do Rio, para dar lugar à Rádio Globo na frequência 98.1. Assim como agora, o streaming entrou na conta como justificativa. À época, a emissora operava no FM 89,5 MHz em uma joint venture com a família Quércia, em um movimento que ecoava estratégias de rádios como a Tupi, no Rio, e a Itatiaia, em Belo Horizonte.

A diferença é que a Rádio Globo demorou a fazer o caminho que essas emissoras já trilhavam. Enquanto Tupi e Itatiaia avançaram com mais agilidade no simulcast entre AM e FM, o Grupo Globo priorizou a CBN nessa estratégia. Quando finalmente adotou o simulcast da Rádio Globo, o movimento já era tardio. Somado ao projeto Rádio Globo Brasil, esse reposicionamento acabou sendo o ponto de partida para as decisões que viriam na sequência.

Na sequência, veio o erro crítico. A troca de comunicadores por celebridades de televisão rompeu com o DNA de serviço, futebol com sotaque, presença nos estádios e conexão local. O resultado foi claro. Perda de audiência, de relevância, de identidade e, no limite, o fim da operação em São Paulo.

A correção veio anos depois. E veio pela música.

Ao retomar o formato musical, a Rádio Globo do Rio de Janeiro ampliou seu alcance de cerca de 800 mil para mais de 2 milhões de ouvintes em 30 dias ao longo de pouco mais de um ano. Ainda longe dos tempos de ouro, mas suficiente para sair de uma operação deficitária e reencontrar função dentro do grupo. Amplificação de marca, presença em eventos e integração com projetos multimeios, especialmente com o Infoglobo, leia-se O Globo, Extra e Quem.

A lição é simples e incômoda. Não foi o streaming que derrubou a rádio do Grupo Estado. Foi a ausência de um projeto. Artística e editorialmente, e dentro do propósito da outorga de promover cultura, arte, moda, informar e difundir descobertas musicais, a Eldorado cumpriu o seu papel, com curadoria qualificada, relevância cultural, credibilidade e formação de público. O que faltou agora foi integrá-la como pilar na reestruturação do Jornal O Estado de S. Paulo, em um projeto consistente de reconstrução e sinergia editorial.

Hoje, o rádio não compete apenas com outras rádios. Compete por atenção. E, nesse jogo, vence quem oferece mais do que música. Oferece contexto, identidade e relação.

O rádio é, e continua sendo, um Eldorado. Mas só para quem sabe o que fazer com ele.

Tags: Rádio Eldorado, streaming de música, mercado de rádio, Grupo Estado, rádio e estratégia, consumo de

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Colunista
Jonas Vilandez Jonas Vilandez é Diretor Artístico do Grupo Bel e proprietário da Audiophilia, consultoria especializada em estratégia e conteúdo para rádio, com passagens por grandes veículos de comunicação no Brasil.










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