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Terça-Feira, 02 de Junho de 2026 @

Quando o rádio deixa de ser frequência e vira identidade

A relação entre audiência e emissoras locais vai além do dial e continua forte mesmo quando o ouvinte muda de cidade, estado ou plataforma

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Estávamos reunidos entre amigos. Papo vai, papo vem e a esposa de um grande amigo meu disse que ele sabia mais sobre como está o trânsito na Avenida Ipiranga do que na avenida próxima da casa onde moram. O fato curioso? A Ipiranga é um grande corredor de Porto Alegre. E eles moram em Curitiba.

E qual o motivo dessa afirmação? Ele, que não é do rádio, mas é gaúcho, estava contando sobre seus hábitos de escuta. Além das bandas de rock que gosta, o cara tem um hábito que joga o tempo médio da Rádio Gaúcha lá nas alturas. Aliás, das sessões do streaming, já que está na capital paranaense. E, a partir disso, comecei a notar que quase existe uma regra: você é gaúcho, está fora do RS, leva a Rádio Gaúcha junto. Não importa se você saiu de lá no ano passado ou há décadas. E isso é relevante pelo fato de essa emissora ter conseguido algo impressionante: forte audiência local e conexão direta com aqueles que são de lá, mas que, por algum motivo, estão morando em outros lugares.

Neste caso em específico, a conexão começa pelo esporte (tanto que a Rádio Grenal também tem ganhado protagonismo nesse tipo de comportamento de escuta) e, na sequência, escala para um consumo completo para quem está longe. Para quem está perto, todo o conteúdo importa. E isso ocorre não apenas com os exemplos do Rio Grande do Sul… Temos vários casos de rádios que se enraizaram nos costumes locais e sabem explorar isso muito bem. Nesse cenário, acaba não importando a plataforma utilizada para escuta (ou assistir): as pessoas continuam consumindo essas marcas de forma assídua. E, quando saem de suas regiões de origem, isso se revela ainda mais necessário, enquanto o digital auxilia nesse processo de continuar ligado à sua terra de alguma forma.

O assunto parece óbvio, mas vira e mexe o mercado se esquece desse poder. Tanto que se surpreendeu com a repercussão extremamente negativa envolvendo a Rádio Eldorado. Diferente da Rádio Gaúcha, a Eldorado não estava entre as líderes de audiência e alcance de seu mercado. Mas atendia (e muito bem) um segmento da população de São Paulo que a tinha como referência e principal companhia há anos, inclusive com formação de novos públicos. Ela tinha um papel único na cultura e nos costumes de uma parcela da audiência paulistana. Isso também nos ajuda a entender que o ranking de audiência não conta toda a história.

E é nesse caldo todo que reside a lógica de que o “rádio é local”. E isso se aplica até para emissoras que operam em rede. Quando saímos da nossa bolha profissional e ouvimos o que a audiência tem a dizer, notamos que o ouvinte costuma preferir consumir a emissora de rede de sua cidade, e não a de outra praça, pois se cria um vínculo. Só se busca a de outro local quando é lá que está a origem desse ouvinte. E, considerando que mesmo para uma rádio que fica 100% na grade de rede o comercial é local, é ali que está a conexão do ouvinte com sua área ou origem. Claro que, quando isso é melhor trabalhado (em situações nas quais a rede sabe manter padrão e presença local) esse potencial é ampliado.

E a tecnologia entende essa lógica. Quando falamos de rádio híbrido, que, a grosso modo, é a mistura do rádio via dial com dados conectados (até streaming), sua lógica de funcionamento é toda local. Você está ouvindo a sua rádio, sai da área de cobertura, entra o áudio do streaming da emissora e assim vai até o seu destino. Desligou o rádio ou o carro? Perde-se essa informação e começa tudo de novo, com as emissoras do local onde se está.

O streaming de rádio também entende isso. Tanto que aplicativos agregadores, como o próprio App Tudo Rádio, oferecem com destaque a aba “local”, já que os hábitos de escuta são majoritariamente da própria praça. E a possibilidade de acessar e ouvir rádios de outras localidades acaba servindo para curiosos, pessoas como meu amigo que querem manter conexão com suas origens ou aqueles que buscam ali algum formato/gênero de rádio que não existe em sua cidade, mas é de seu gosto.

Falamos muito de tecnologia, de plataformas, do sinal das FMs, da qualidade do streaming etc. Mas tudo isso serve para ajudar a manter (e até potencializar ainda mais) o poder do conteúdo de rádio ao vivo, que reflete diretamente os costumes e preferências do local que ele atende. Por isso essa mídia continua sendo tão indispensável, independentemente do tipo de tecnologia ou dispositivo usado para consumi-la.

Tags: rádio, rádio local, streaming de rádio, Rádio Gaúcha, audiência de rádio, rádio híbrido, mercado de

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Colunista
Daniel Starck
  • Daniel Starck – Jornalista, empresário e proprietário do tudoradio.com, maior portal brasileiro dedicado à radiodifusão, com mais de 20 anos no ar. É formado em Comunicação Social pela PUC-PR e teve passagens por emissoras como CBN, Rádio Clube e Rádio Paraná. Atua como consultor e palestrante nas áreas artística e digital do rádio, com participação em eventos promovidos por entidades como SET, AESP, AMIRT, ACAERT, ASSERPE, AERP e MidiacomPB. Também possui conhecimento na área de tecnologia, com foco em aplicativos, mídia programática, novos devices, inteligência artificial, sites e streaming. LinkedIn









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