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Quinta-Feira, 03 de Setembro de 2026 @

Lá vai o Rádio, perder mais uma eleição

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Este artigo contém um claro conflito de interesses. Há décadas produzo rádio para propaganda eleitoral.  Na campanha em que estou, os meninos me apresentaram como o cara que fez o segundo turno de D. Pedro II contra Rui Barbosa. 

Mas o conflito não é comercial. É que eu me divido mesmo, por conhecer os dois lados. 

O Rádio começa perdendo – a TV também, mas é outro caso- por ter de abrir sua programação para 140 mensagens de partidos, fora o programa em bloco. Há um espaço pantanoso entre a determinação legal que dá às emissoras benefícios fiscais em troca e o resultado real.  

Só lembrando que até 2014, eram 45 dias de campanha, uma média de 108 comerciais diários. Não o ideal, apenas mais razoável. A mudança para apertar as mesmas inserções em 35 dias aconteceu coincidentemente porque a Olimpíada do Rio cairia nos primeiros dias de campanha. Um arranjo conveniente, na época. Mas os jogos já foram e o horário ficou igual. A pasta de dente nunca voltou ao tubo.  

É necessário deixar claro que 140 inserções por dia é muito, absurdamente muito. E o que é pior: pela quantidade, se torna irrelevante. A maioria das peças se perde e uma pequena parte, de produção mais caprichada, funciona entre as duas orelhas do público. 

Minhas duas avós diriam: água demais mata a planta. Assunto para outra prosa.   

Vamos falar rapidamente das nossas culpas e chegar ao desfecho. O Rádio continua vagando sem se reposicionar junto aos novos públicos. Há fantásticas exceções, sim, claro, excelentes trabalhos individuais de algumas redes e emissoras. Mas quase nada de ação corporativa.  Exemplo rápido: o quanto a TV bateu o bumbo para sua migração para o digital versus como o Rádio enterrou as AMs para ir para a inóspita banda estendida. 

 Aí geração após geração, novas cabeças de campanhas e agencias seguem colocando áudio de vídeo no rádio. E tratando o horário eleitoral pelas ondas como uma tediosa obrigação.  Como se durante a propaganda eleitoral fosse obrigatório escrever prompts e copys numa máquina de escrever e enviar pelo fax de telefone discado. 

A migração do Rádio transformou muitas AM jornalísticas, minimamente informativas, ou miseravelmente conversadas com a cidade, numa emissora de rede. Ok, ok, velho homem do dial, é um fenômeno de grandes mercados, rede é legal, tudo certo.  

Mas o resultado é que a cada dois anos, o Rádio é tomado por uma quantidade de gente completamente desconhecida principalmente às rádios musicais, dizendo que quer fazer o bem a ele, desconfiado ouvinte. E depois somem por mais dois anos. E não são procurados. É  um incômodo  como uma onda de gripe ou um mutirão de colonoscopia. 

Para coroar. A propaganda é muitas vezes chata, exagerada, ridícula, amadora. Às vezes bem feita. Mas ela será sempre nosso espelho. Nós elegeremos estes caras.   

Ainda é muito comum que apresentadores, irritados com a chateação, praticamente espantem o ouvinte, pedindo que ele volte meia hora depois. É trabalhar contra um momento em que, lá pelo meio, encontramos uma pessoa com ideias razoáveis, alinhadas com as nossas, que nos anima um pouco.  

Além de ser uma rasteira na Democracia, tratar mal o horário eleitoral, enxotar quem te ouve é arriscado, coleguinha. Neste tempo ele tem tanto estímulo pela sua atenção - celular, tv, trabalho em home, tela de elevador, a lista de compras da Alexia, botar o gato pra passear no aspirador robô – que muitos se tornarão internautas, seguidores, haters, spotifyers. No caminho, perdemos dois artigos cada vez mais raros no mercado. Ouvintes e cidadãos.  


ilustração feita por IA

* Por Luiz Henrique Romagnoli - jornalista, produtor de áudio, professor, consultor. Se orgulha de umas tantas campanhas eleitorais que fez para rádio. E geralmente é mais bem humorado   

Tags: rádio, eleições, horário político, interrupções, audiência, consumo, dial, pleito, politica

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Colunista
Luiz Henrique Romagnoli Luiz Henrique Romagnoli é radialista, jornalista, consultor e redigiu e dirigiu o Show de Rádio a partir de 1996. Promete para logo a abertura do seu blog romagnoli.radio.br. Não deixem de perder.










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