




Sexta-Feira, 24 de Abril de 2026 @ 06:39
Las Vegas (EUA) - Bate-papo entre Cristiano Stuani, Cristiano Flores e Daniel Starck destacou novo momento do rádio, avanço de metadados, integração entre broadcast e streaming, dados para o mercado publicitário e protagonismo brasileiro em Las Vegas
Assista acima o podcast especial sobre o NAB Show 2026, direto de Las Vegas, com entrevista de Cristiano Flores (ABERT)
A participação brasileira na NAB Show 2026, em Las Vegas, foi marcada por discussões sobre o novo momento do rádio, com foco na consolidação do conceito de rádio 3.0, no avanço das soluções híbridas e na necessidade de o setor acelerar ajustes técnicos e estratégicos para sustentar sua relevância. O tema foi debatido em bate-papo com Cristiano Stuani, consultor, Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT, e Daniel Starck, do tudoradio.com, diretamente da feira. O portal realizou uma cobertura especial do NAB Show 2026, com os apoios da ABERT, a BeAudio, a AMIRT e a MidiacomPB.
Logo no início da conversa, Cristiano Flores avaliou que a NAB segue relevante no calendário internacional, embora viva um momento de redimensionamento. Segundo ele, a feira recebeu cerca de 60 mil participantes, número considerado positivo, mas ainda abaixo do patamar superior a 100 mil registrado antes da pandemia. Na avaliação do executivo, esse cenário é influenciado por fatores geopolíticos e também pela concorrência de outros eventos internacionais, como o Mobile World Congress, em Barcelona, e o IBC, em Amsterdã. Ainda assim, Flores ressaltou que a NAB “continua pujante” e com boa circulação de público.
Outro destaque foi o tamanho da delegação nacional. Flores afirmou que o Brasil voltou a chamar atenção no evento e arriscou que o país, mais uma vez, deve ter formado a maior delegação estrangeira da NAB. Ele também destacou a presença de radiodifusores, parlamentares, representantes do Ministério das Comunicações e conselheiros da Anatel, avaliando que isso ajuda a reforçar a percepção de que o rádio vive uma fase de retomada: “O rádio parece que está reencontrando o prumo. E as pessoas estão novamente vendo o valor de ouvir rádio”.
Rádio ganha mais espaço
Daniel Starck também chamou atenção para a presença mais visível do rádio dentro da NAB Show 2026. Segundo ele, o espaço destinado ao meio no pavilhão central reformulado ajudou a ampliar a circulação de radiodifusores brasileiros e a atrair interesse por novas soluções. Na mesma linha, o bate-papo ressaltou a importância da participação no espaço “SET 30”, apontada como um marco por abrir uma discussão mais estruturada sobre o futuro do rádio dentro do ambiente técnico da feira.
Foi justamente nesse contexto que ganhou força o conceito de rádio 3.0. Cristiano Flores destacou que o tema já começou a ganhar campo no mercado e afirmou que o setor precisa de uma narrativa mais clara para explicar sua evolução. Segundo ele, o rádio 3.0 nasce da combinação entre a linguagem própria do meio, sua presença em broadcast, sua expansão no streaming e o acréscimo do ferramental do rádio híbrido. “O rádio precisa de uma narrativa clara e universal”, afirmou. Em outro momento, reforçou: “Esse conceito de rádio 3.0 passa pelo broadcast, passa pelo streaming. O rádio híbrido, novamente, é um incremento que nós vamos construir nesse universo”.
Ao detalhar esse processo, Flores ressaltou que não se trata de algo pronto ou encerrado, mas de uma evolução em curso. “O rádio é um processo de construção”, disse, ao apontar que o meio foi naturalmente ocupando os ambientes em que o público está, mas que agora esse movimento passa a ser organizado de forma mais estruturada, inclusive para facilitar o diálogo com o mercado publicitário. Daniel Starck reforçou essa percepção ao afirmar que a repercussão do tema, inclusive fora do setor, sinaliza que essa leitura “faz sentido para o rádio”.
+ SET:30: Painel no NAB Show 2026 destaca conceito de Rádio 3.0 e reforça força do meio no Brasil
Híbrido como caminho prático
A conversa também avançou sobre uma provocação importante: se o rádio híbrido pode ser visto como um caminho prático para o rádio digital terrestre que não avançou no Brasil. A resposta foi cautelosa, mas apontou direção. Flores afirmou que vê essa solução como um caminho e recordou que a digitalização terrestre acabou sendo “muito atropelada pela internet”, enquanto as soluções híbridas avançam com mais agilidade por dependerem menos de políticas públicas e mais da articulação do setor privado e do associativismo.
Nesse ponto, as visitas da delegação a empresas como Xperi/Xperia, RadioPlayer, DTS/DNS e Triad foram tratadas como centrais para entender as possibilidades de adoção no mercado brasileiro. Entre elas, a plataforma RadioPlayer foi uma das mais elogiadas. Flores afirmou ter ficado “muito impressionado” com o nível de maturidade do produto, especialmente pela forma como ele valoriza a frequência tradicional, ao mesmo tempo em que incorpora a complementaridade do streaming e do IP no ambiente automotivo. Para ele, trata-se de uma solução com real capacidade de penetração na indústria automobilística.
Daniel Starck observou que essas plataformas já não se apresentam apenas como conceito, mas como soluções em funcionamento, com interface intuitiva e lógica próxima à forma como o público já usa plataformas digitais. Segundo ele, esse aspecto é decisivo para a adoção: “Uma tecnologia pega tração quando ela é simples no modo de utilização e realmente pensa na usabilidade por parte das pessoas”. Também ressaltou que essas soluções impactam diretamente a experiência da audiência e, por consequência, a questão publicitária.
Broadcast e streaming como complementares
Um dos pontos mais enfatizados no bate-papo foi a integração entre broadcast e broadband. Flores afirmou que a discussão apresentada no painel ajudou a eliminar de vez a lógica de concorrência entre as duas frentes. Segundo ele, os números mostrados indicam que uma plataforma impulsiona a outra e que ambas são complementares. Daniel Starck resumiu essa dinâmica ao dizer que as pessoas consomem áudio onde está mais fácil para elas, o que reforça a necessidade de o rádio estar organizado para operar em múltiplos ambientes.
A ideia de rádio visual também apareceu com destaque. No bate-papo, os participantes frisaram que esse conceito não significa simplesmente vídeo, mas sim um rádio enriquecido por dados, identidade visual e metadados, especialmente em receptores automotivos e interfaces digitais. Flores disse que esse movimento “não é mais o futuro, é o presente” e ressaltou que muitas dessas adaptações podem ser feitas rapidamente. Também observou que soluções diferentes não se anulam, mas podem ser complementares, e que a própria Abert pode atuar como aceleradora desse processo.
O básico ainda precisa ser resolvido
A discussão chegou então ao que Cristiano Stuani classificou como o “arroz com feijão” que ainda precisa ser resolvido por muitas emissoras. Ele chamou atenção para o fato de o setor falar em rádio híbrido, visual e multiplataforma, mas ainda conviver com falhas básicas como RDS incompleto, ausência do nome da emissora nos receptores, metadados deficientes e streaming com qualidade sonora inadequada. Stuani chegou a defender a criação de uma espécie de cartilha para orientar o setor sobre como “arrumar esse RDS primeiro”.
Daniel Starck reforçou essa crítica ao afirmar que o ouvinte já percebe com clareza quando a experiência é bem feita e quando não é. Segundo ele, exibir corretamente o nome da rádio no display já é o mínimo esperado, ainda mais num cenário em que os receptores estão gravando e organizando as emissoras com base no RDS. Nesse contexto, Flores afirmou concordar integralmente com a cobrança e disse que não adianta ocupar várias plataformas “simplesmente por ser multiplataforma” sem cuidar do produto principal. Para ele, estar num line-up sem o nome correto da rádio pode inclusive “queimar a marca”, prejudicando reputação e posicionamento.
Dados e monetização
Outro ponto valorizado foi o potencial de geração de dados e de monetização que essas plataformas podem oferecer. Flores citou, por exemplo, dashboards com mapas de calor que mostram por onde a audiência está circulando, permitindo identificar bairros, regiões e comportamentos de escuta. Na avaliação do grupo, esse tipo de inteligência vale “ouro” para a programação, para ações promocionais e especialmente para o mercado publicitário. Também foram mencionadas possibilidades como continuidade da escuta entre carro e celular, acionamento por QR Code e novos espaços de monetização digital dentro das plataformas.
A relação com o mercado publicitário apareceu como uma das prioridades da Abert para este ano. Flores explicou que a entidade vem tentando traduzir essa nova fase do rádio em linguagem mais clara para agências e anunciantes, a partir de dados e de uma narrativa mais organizada. Ele citou, inclusive, a parceria com o tudoradio.com na construção desse processo e afirmou que o setor vive “um ambiente super positivo do rádio”, mas que isso precisa ser apresentado ao mercado de forma objetiva, com produção contínua de informações e indicadores.
Nesse esforço de reposicionamento, Flores voltou a mencionar a campanha “Rádio é só ligar”, da qual o tudoradio.com participou como curador. Segundo ele, a ação faz parte de um momento mais amplo de valorização do meio e ajuda a reforçar a lembrança de que o rádio está presente na rotina das pessoas em diversos dispositivos e situações de consumo. A própria apresentação vinculada à NAB reforça esse discurso ao apontar a evolução da recepção do rádio em diferentes dispositivos, o avanço do streaming em smartphones, smart speakers, tablets, computadores e TVs conectadas, além da expansão global dos receptores híbridos.
Ambiente supervisionado e jornalismo
O bate-papo ainda ampliou o foco para o papel estratégico do rádio e da televisão num ambiente de comunicação cada vez mais marcado por excesso de informação, plataformas abertas e avanço da inteligência artificial. Flores avaliou que, embora o setor enfrente uma fase difícil sob o ponto de vista de receitas, há um contrafluxo favorável, já que marcas e audiências voltam a valorizar ambientes supervisionados, editoriais e confiáveis. “Nós chegamos onde as techs não chegam. Nós chegamos nas comunidades, nós somos a população local”, afirmou.
Ao tratar especificamente do jornalismo, ele foi ainda mais direto: “Não existe substituto do produto jornalismo”. Na avaliação de Flores, enquanto a internet ampliou a liberdade de expressão, o jornalismo profissional segue sendo uma ciência baseada em apuração, contradição e responsabilidade editorial. Daniel Starck concordou e afirmou que, diante do avanço da inteligência artificial e dos problemas de desinformação, o jornalismo se torna ainda mais essencial e precisa ser potencializado pela tecnologia, não escondido por ela.
Na parte final da conversa, Flores reforçou que a Abert pretende aproveitar esse momento favorável para avançar em políticas para o rádio, aproximar o setor do Ministério das Comunicações e aprofundar a interlocução com agências e anunciantes. Ele citou, inclusive, a participação de mais de 70 agências em evento previsto em Porto Alegre, apontando uma abertura crescente do mercado para essa nova narrativa do rádio. Daniel Starck encerrou com uma síntese que dialoga com todo o conteúdo do debate: é importante “nomear esse momento do rádio e mostrar que ele está nos mais diversos dispositivos e não é preso a uma única definição”.
Cobertura NAB Show 2026 tudoradio.com
O tudoradio.com acompanhou novamente o NAB Show direto do Las Vegas Convention Center, local onde foi realizado a feira e o congresso entre 18 e 22 de abril, nos Estados Unidos, em trabalho realizado com a Mentoria Cristiano Stuani. Toda a programação paralela ao NAB Show, realizada para radiodifusores brasileiros, também terá atenção especial na cobertura. A Cobertura NAB Show 2026 tudoradio.com tem como parceiros apoiadores a ABERT, a BeAudio, a AMIRT e a MidiacomPB.
+ Confira aqui todas as notícias publicadas pelo tudoradio.com sobre o NAB Show 2026



