




Sexta-Feira, 11 de Setembro de 2026 @ 11:13
Amsterdã - Pesquisa apresentada no IBC2026 mostra como diferenças físicas entre ouvintes podem exigir ajustes individuais na reprodução por fones
A personalização da experiência de áudio pode avançar para além da recomendação de conteúdos e chegar à própria forma como o som é reproduzido para cada pessoa. Uma pesquisa apresentada nesta sexta-feira (11) durante o IBC2026, em Amsterdã, mostrou como características físicas de cada indivíduo podem provocar diferenças significativas na percepção de um mesmo conteúdo reproduzido em fones de ouvido. O trabalho também demonstrou uma tecnologia capaz de utilizar fotografias feitas por smartphones para ajustar individualmente essa experiência sonora. O assunto ganha importância para o rádio, que vê o crescimento de fones de ouvido sem fios, que impulsionam o áudio digital das emissoras. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.
O estudo foi apresentado por Kimio Hamasaki, Chief Scientist da final Inc., durante a sessão "Audio, Access Services and User Experience". A pesquisa parte de uma característica importante do consumo atual de mídia, no qual os fones de ouvido passaram a ocupar uma posição relevante como ponto final da distribuição de conteúdos de broadcast, streaming, vídeo e aplicações imersivas. A questão levantada por Hamasaki é que a reprodução sonora não depende apenas das características do equipamento utilizado. A anatomia de cada pessoa, incluindo cabeça, torso e principalmente o formato das orelhas, interfere na maneira como o som chega aos ouvidos e, quando headphones são utilizados, parte dessas interações acústicas naturais é modificada.
Durante a apresentação, Hamasaki mostrou medições realizadas com 12 pessoas sob as mesmas condições. Mesmo utilizando o mesmo sistema, foram encontradas diferenças superiores a 20 dB em determinadas regiões do espectro sonoro entre os participantes. “Uma única curva de resposta não consegue atender a todos os ouvintes”, explicou Hamasaki. A constatação levou os pesquisadores ao desenvolvimento da Personalized-Timbre Target Curve (PTTC), uma curva de resposta individualizada que busca compensar essas diferenças. Em uma das demonstrações, diferentes pessoas utilizando exatamente o mesmo modelo de headphone receberam curvas distintas. “Cada ouvinte recebe uma curva diferente”, afirmou.
A proposta é fazer com que a reprodução sonora considere características do próprio indivíduo, em vez de utilizar exclusivamente uma curva genérica aplicada a todos os usuários. Com isso, a personalização deixa de representar apenas uma preferência por mais graves ou agudos e passa a considerar diferenças físicas que influenciam efetivamente a percepção sonora. Esse conceito também amplia uma tendência já bastante presente no ambiente digital: enquanto sistemas de recomendação personalizam qual conteúdo chega ao usuário, novas tecnologias começam a buscar uma individualização da própria maneira como esse conteúdo é ouvido.
Smartphone amplia possibilidade de aplicação
Um dos pontos de maior interesse para aplicações comerciais está na evolução entre os dois métodos apresentados pela pesquisa. O primeiro, denominado PTTC-1, utiliza escaneamento tridimensional da cabeça, torso e orelhas do usuário para realizar os cálculos necessários. Apesar da precisão, esse procedimento apresenta dificuldades evidentes para uma aplicação em grande escala. Por isso, os pesquisadores desenvolveram o PTTC-2, pensado para smartphones e produtos de consumo. “Precisamos de uma solução mais simples e escalável”, disse Hamasaki.
Nesse segundo método, fotografias da cabeça e das orelhas feitas pelo próprio smartphone fornecem informações anatômicas do usuário. Pontos específicos das imagens são identificados e utilizados em um sistema baseado em machine learning para estimar a resposta individual. Segundo os resultados apresentados no IBC2026, as curvas obtidas por esse método permaneceram próximas às calculadas pelo sistema mais complexo de escaneamento tridimensional. A aplicação também pode aproveitar a capacidade de processamento já presente nos dispositivos. “Podemos implementar isso utilizando o DSP já existente nos headphones”, explicou o pesquisador.
Na prática, o usuário realiza as fotografias pelo smartphone, os parâmetros individuais são calculados e posteriormente enviados ao processamento do próprio fone. A tecnologia PTTC-2 já foi implementada pela final Inc. em modelos comerciais de fones TWS (True Wireless Stereo), aproximando a pesquisa de uma aplicação real no consumo cotidiano de áudio.
Os pesquisadores também realizaram testes para determinar se a personalização provocava diferenças efetivamente percebidas pelos usuários. Um dos experimentos reuniu 31 participantes e comparou diferentes curvas de reprodução, com a solução personalizada apresentando resultados superiores em aspectos relacionados à qualidade sonora, naturalidade, equilíbrio e suavidade. “A curva personalizada apresentou melhor qualidade sonora e maior naturalidade”, afirmou Hamasaki. Os resultados também indicaram redução da percepção de aspereza e de fadiga auditiva, aspecto que ganha importância diante de um cenário de consumo prolongado por headphones, incluindo música, rádio via streaming, podcasts, vídeos e outros conteúdos digitais.
Outro teste envolveu 29 participantes e avaliou a tecnologia com áudio binaural imersivo. Uma das questões investigadas era se a alteração do timbre poderia comprometer informações espaciais presentes no conteúdo, mas os resultados apresentados apontaram na direção contrária. “A impressão espacial também melhorou com a personalização do timbre”, destacou Hamasaki. Foram analisados fatores relacionados à sensação de envolvimento, percepção frontal e traseira e dimensão do espaço sonoro, fazendo com que a proposta vá além de uma equalização personalizada e passe a considerar também a experiência espacial proporcionada pelos headphones.

Kimio Hamasaki, Chief Scientist da final Inc / tudoradio.com
Nova camada para a distribuição de áudio
A apresentação chama a atenção para uma possível mudança na última etapa da cadeia de distribuição. Atualmente, emissoras, plataformas e produtores entregam essencialmente o mesmo sinal sonoro aos usuários, enquanto adaptações ocorrem principalmente no equipamento utilizado para reprodução ou por ajustes escolhidos manualmente pelo consumidor. A tecnologia demonstrada no IBC2026 aponta para outro cenário: duas pessoas podem consumir o mesmo streaming e utilizar o mesmo modelo de fone, mas receber processamentos diferentes para que a experiência percebida seja mais adequada às características individuais de cada uma.
“Estamos propondo uma camada perceptual para a distribuição baseada em headphones”, resumiu Hamasaki ao abordar as possibilidades futuras da tecnologia. O conceito foi relacionado durante a apresentação às aplicações de broadcast e OTT e pode ganhar importância à medida que smartphones e fones sem fio ampliam seu papel no consumo de conteúdos. Para o rádio, isso inclui desde a transmissão linear via streaming até podcasts e outros produtos de áudio sob demanda, acrescentando uma nova dimensão à personalização da experiência oferecida ao ouvinte.
A pesquisa ainda apresenta limitações. Os testes mostrados no IBC2026 foram realizados com participantes entre 18 e 35 anos, com audição considerada normal e em ambientes silenciosos. Entre os próximos passos apresentados estão avaliações em outras condições de escuta, além de novos trabalhos de validação e calibração da tecnologia.

arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026


