




Sábado, 12 de Setembro de 2026 @ 16:07
Amsterdã – Emissora australiana detalha adaptação de boletins locais para o digital, enquanto OBS mostra ganho de escala com a tecnologia
A inteligência artificial começa a ocupar uma função mais ampla dentro das empresas de mídia, indo além da geração automática de conteúdos e passando a atuar como uma camada de assistência para jornalistas, produtores e demais profissionais. Esse cenário foi detalhado durante o painel “CTO Perspectives: How AI is reshaping the business of media?”, realizado no IBC2026, em Amsterdã, que reuniu Damian Cronan, da Australian Broadcasting Corporation (ABC), e Sotiris Salamouris, da Olympic Broadcasting Services (OBS). Entre os exemplos apresentados está o uso da IA pela ABC para dar uma nova vida digital a conteúdos originalmente produzidos para o rádio, mantendo a origem e a supervisão editorial humanas. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.
A experiência apresentada pela ABC chama a atenção por partir de uma definição sobre qual problema a inteligência artificial deve resolver antes da escolha da tecnologia. Cronan afirmou que a organização procura concentrar seus esforços em duas frentes: ajudar seus profissionais a produzir conteúdos melhores e utilizar a tecnologia para ampliar o relacionamento da audiência com aquilo que já é produzido pela empresa. “AI for the most part is an expensive hammer, so you've just got to make sure you're applying it in ways that are solving or moving the needle for either our content creators or our audience”, afirmou. Em tradução livre, ele comparou a IA a um “martelo caro”, defendendo que seu emprego precisa efetivamente produzir resultados para criadores ou para o público.
A ABC possui uma equipe dedicada à inteligência artificial desde antes da atual expansão da IA generativa. A primeira estratégia foi manter as experiências mais avançadas dentro da própria organização, reduzindo riscos antes de levar aplicações diretamente para a audiência. A emissora australiana também encontrou em seu amplo arquivo histórico, formado por cerca de 90 anos de produção, um campo importante para o desenvolvimento dessa tecnologia.
Desse processo nasceu o ABC Assist, ferramenta desenvolvida para auxiliar os profissionais da empresa em atividades como pesquisa, identificação de conteúdos anteriores, localização de referências específicas em áudio e vídeo, análise e desenvolvimento de ideias. Segundo Cronan, a IA também ajuda a enfrentar uma dificuldade histórica das empresas de mídia: a falta ou inconsistência de metadados em grandes acervos. O sistema consegue identificar referências específicas dentro do conteúdo e relacioná-las tanto à produção histórica quanto ao material produzido diariamente pela ABC.
Do boletim de rádio para novas audiências digitais
Uma das aplicações posteriores dessa infraestrutura está diretamente relacionada ao rádio. A ABC mantém uma extensa presença radiofônica local na Austrália, com jornalistas produzindo diariamente boletins e histórias de diferentes comunidades. Porém, muitas dessas equipes são pequenas e nem sempre possuem recursos para adaptar toda essa produção para outras plataformas.
A emissora passou então a utilizar inteligência artificial para transformar os roteiros desses boletins de rádio em conteúdos adequados ao ambiente digital, ampliando a vida útil do material originalmente produzido para a transmissão radiofônica. A estratégia não é apresentada necessariamente como uma tentativa de ampliar alcance a qualquer custo, mas de aumentar a relevância da produção local também junto à audiência digital.
O processo, porém, permanece ancorado no trabalho humano. A informação original é produzida por jornalistas e o resultado elaborado com auxílio da IA passa por revisão humana antes da publicação. Cronan ressaltou que uma operação aparentemente simples exige cuidados significativos quando aplicada ao jornalismo. Questões jurídicas relacionadas à cobertura de tribunais, restrições de divulgação e particularidades envolvendo conteúdos sobre povos originários australianos, por exemplo, foram incorporadas às regras utilizadas pelo sistema. Segundo ele, as instruções desenvolvidas conjuntamente por engenheiros e profissionais de jornalismo chegam a ocupar várias páginas.

Cronan também deixou claro que a intenção da ABC não é substituir jornalistas pela produção automatizada. “The ultimate differentiator is not a race to the bottom. We don't want to end up with AI-generated news articles or content”, afirmou. A proposta, segundo o executivo, é utilizar a tecnologia para retirar parte do trabalho mais pesado do cotidiano jornalístico, incluindo pesquisa, análise, sumarização e desenvolvimento inicial de ideias, permitindo que os profissionais concentrem mais esforços na qualidade do conteúdo entregue à audiência.
Essa lógica aponta para uma possibilidade particularmente relevante para o rádio em um ambiente multiplataforma. Um conteúdo originalmente produzido para a programação linear pode ganhar novas apresentações e alcançar outros ambientes digitais sem exigir que cada versão seja reconstruída integralmente por uma equipe. A IA passa, nesse contexto, a ajudar na circulação e no reaproveitamento da produção original, em vez de necessariamente substituir sua origem humana.
Escala, personalização e diferentes níveis de risco
A experiência da OBS mostrou outra dimensão desse processo: a capacidade de utilizar inteligência artificial para trabalhar com volumes de conteúdo que seriam difíceis de administrar exclusivamente por meio de processos tradicionais. Salamouris explicou que a tecnologia já está integrada à produção esportiva, incluindo recursos visuais, replays e geração automática de melhores momentos.
Nos Jogos Olímpicos de Paris, segundo o executivo, foram produzidos cerca de 80 mil clipes de highlights de maneira automatizada com IA. Aproximadamente 80% desse volume teria sido solicitado pelos próprios detentores dos direitos de transmissão, enquanto cerca de 20% foi produzido pela OBS.
O modelo permite que os parceiros estabeleçam critérios para aquilo que desejam extrair do enorme acervo produzido durante os Jogos. Em vez de existir apenas um pacote universal de melhores momentos, a IA permite trabalhar com diferentes interesses e necessidades. “The way that content is consumed in Australia, for example, is not the same as it is done in Mongolia or in Pakistan or in other countries”, exemplificou Salamouris.
Essa personalização é possível porque os modelos têm acesso ao conteúdo produzido e ao arquivo em construção durante os eventos, envolvendo milhares de horas. A partir das orientações dos detentores de direitos, a tecnologia pode selecionar e propor conteúdos, deixando ao produtor a decisão final de publicação.
A ampliação dessa escala também trouxe ao painel a discussão sobre os limites da automação. Para Salamouris, exigir uma intervenção humana igualmente intensa em absolutamente todas as etapas pode retirar justamente parte do ganho proporcionado pela inteligência artificial. O desafio passa a ser determinar onde a supervisão humana é indispensável e onde a tecnologia pode operar com maior autonomia.
Ele exemplificou essa diferença comparando a geração de um highlight esportivo com uma tradução. Se um sistema escolher um ponto de corte ligeiramente diferente daquele que um produtor escolheria, o impacto pode ser limitado. Já uma tradução automatizada que altere o significado de uma entrevista pode gerar consequências muito mais sérias. Por isso, Salamouris defendeu políticas corporativas acompanhadas de treinamento contínuo dos profissionais, permitindo que as próprias equipes compreendam os riscos associados a cada aplicação.
Cronan apresentou uma lógica semelhante na ABC. A empresa trabalha com princípios centrais que estabelecem limites gerais para o uso da IA, mas adapta as orientações conforme a área. Jornalismo, entretenimento, marketing e relacionamento com a audiência apresentam níveis diferentes de risco e, consequentemente, não podem trabalhar necessariamente sob as mesmas regras.
A confiança da audiência aparece como um dos elementos centrais desse processo. “Trust is hard-earned and it's easily lost”, resumiu Cronan. Segundo ele, quando a IA atua apenas como assistência interna para pesquisa, análise ou sumarização, sem alterar substancialmente o trabalho final do jornalista, a ABC não considera necessária uma indicação específica ao público. Porém, quando seu emprego pode modificar materialmente a compreensão do conteúdo recebido pela audiência, a organização prevê a divulgação desse uso.
O avanço da IA também deverá modificar o perfil dos profissionais das empresas de mídia. Salamouris argumentou que ganhos significativos de produtividade aumentam também a responsabilidade e a capacidade exigida de cada profissional. Cronan observou que esse impacto já é bastante visível em áreas como desenvolvimento de software, enquanto nas funções criativas e editoriais a transformação tende a ocorrer de maneira mais gradual. Para o executivo da ABC, grandes organizações ainda precisam reconstruir fluxos de trabalho e incorporar efetivamente essas ferramentas à forma como produzem valor, um movimento que tende a ocorrer em ritmos diferentes dentro de cada empresa.
Ao encerrar o painel, o moderador Laurent Colombani, da Bain & Co., destacou que o melhor aproveitamento da IA não deverá depender necessariamente de quem avançar mais rapidamente ou investir mais recursos na tecnologia, mas da capacidade de cada organização de identificar onde cria valor e aplicar a inteligência artificial de maneira deliberada nesses processos. Os casos apresentados pela ABC e pela OBS mostraram aplicações que já estão em produção, passando pelo reaproveitamento de boletins locais de rádio, pesquisa em grandes acervos, personalização de conteúdo e geração de milhares de melhores momentos esportivos.

arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026


