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Pesquisa com rádios brasileiras mostra avanço da inteligência artificial e preocupação com preservação do trabalho humano

Pesquisa com rádios brasileiras mostra avanço da inteligência artificial e preocupação com preservação do trabalho humano

São Paulo - Levantamento publicado pela Revista da SET analisou experiências de 19 emissoras brasileiras e identificou aplicações da tecnologia na programação, no jornalismo e nas operações comerciais


A inteligência artificial (IA) está ampliando sua presença nas operações das emissoras de rádio brasileiras, com aplicações que vão desde a produção de conteúdos jornalísticos e a automação de processos até a criação de locutores virtuais e novas estratégias de distribuição digital. Apesar do avanço dessas ferramentas, a preservação da identidade do rádio, a supervisão humana e a manutenção da credibilidade aparecem entre as principais preocupações dos radiodifusores. Esse cenário é apresentado em um levantamento publicado na edição 229 da Revista da SET, que analisou experiências de 19 emissoras distribuídas pelas cinco regiões do Brasil. O estudo aponta que a adoção da IA ainda ocorre em diferentes estágios de desenvolvimento, mas já provoca mudanças nas rotinas profissionais e nas possibilidades de atuação do meio.

A reportagem, intitulada Radiodifusores apostam na IA para inovar no rádio sem perder a tradição, foi publicada pela Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET) e é assinada pelos pesquisadores Nair Prata, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Nélia Del Bianco, vinculada à Universidade de Brasília (UnB) e à UFOP, e Hélder Lima, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O trabalho reúne informações sobre experiências práticas de utilização da inteligência artificial no rádio brasileiro, além de identificar oportunidades, limitações e preocupações relacionadas à incorporação dessas tecnologias.

Segundo os dados apresentados na publicação, 47% das emissoras analisadas começaram a utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa em 2025, enquanto 43% iniciaram esse processo em 2024. Os números indicam uma concentração recente das iniciativas, acompanhando a popularização de plataformas capazes de produzir textos, imagens, áudios e outros conteúdos. O levantamento também identificou que 36,84% das rádios utilizam IA de maneira permanente, enquanto outros 36,84% ainda trabalham com aplicações experimentais, evidenciando que parte significativa das operações está em processo de adaptação.

Aplicações vão da produção de conteúdo à automação das operações

Entre as possibilidades identificadas pelos pesquisadores estão a utilização de inteligência artificial para transcrição de entrevistas, elaboração de textos, monitoramento de informações, produção de materiais para plataformas digitais e otimização de conteúdos para mecanismos de busca. Também aparecem iniciativas relacionadas à programação musical, ao desenvolvimento de assistentes virtuais e à criação de vozes sintéticas, ampliando as alternativas de produção e distribuição de conteúdo pelas emissoras.

A reportagem destaca experiências já conhecidas do mercado brasileiro, como a utilização da repórter virtual EmíliA, da BandNews FM, do locutor virtual Guto, da Rádio Tropical FM, e da assistente Sol, da Alvorada FM. Esses exemplos demonstram diferentes possibilidades de aplicação da tecnologia, tanto na criação de personagens e interfaces de comunicação quanto no apoio às atividades realizadas pelas equipes das rádios. O estudo também considera iniciativas voltadas à organização de processos internos e ao desenvolvimento de novas experiências para os ouvintes.

A diversidade de aplicações, entretanto, não significa que a inteligência artificial esteja plenamente integrada às operações. Conforme os resultados apresentados pela Revista da SET, 44,44% das emissoras avaliadas registram baixo nível de integração da tecnologia, enquanto apenas 16,67% apresentam integração elevada. Esse cenário demonstra que a utilização de ferramentas isoladas ainda é mais frequente do que a incorporação da IA de maneira abrangente aos processos de produção, gestão e distribuição de conteúdo.

Entre as plataformas mencionadas no levantamento, o ChatGPT aparece com 26,47% das referências, seguido pelo Gemini, com 17,65%. A presença dessas ferramentas indica a relevância dos sistemas de inteligência artificial generativa nas experiências observadas, especialmente em atividades relacionadas à elaboração, organização e adaptação de informações.

Preservação das equipes e supervisão humana aparecem entre as prioridades

Outro aspecto destacado pela pesquisa é a relação entre a incorporação da inteligência artificial e o trabalho dos profissionais de rádio. De acordo com o levantamento, 55,56% das emissoras analisadas não pretendem substituir profissionais em decorrência da utilização dessas tecnologias. O resultado indica que, entre as experiências avaliadas, a IA também é percebida como uma ferramenta de apoio às equipes, com potencial para reduzir atividades repetitivas e ampliar a capacidade de produção.

No jornalismo, a necessidade de supervisão humana ganha importância diante dos riscos relacionados à precisão das informações e à confiabilidade dos conteúdos gerados automaticamente. Segundo a pesquisa, 38,24% das referências relacionadas às práticas jornalísticas apontam a checagem humana como obrigatória. A preocupação envolve a possibilidade de erros, informações imprecisas e conteúdos produzidos sem a contextualização necessária, especialmente em um meio que mantém uma relação direta de confiança com seus ouvintes.

A preservação da identidade das emissoras também aparece como um dos desafios desse processo. Embora a inteligência artificial permita automatizar tarefas e criar novas formas de interação, características tradicionais do rádio, como a proximidade com o público, a espontaneidade da comunicação e a presença de profissionais reconhecidos pelos ouvintes, continuam sendo consideradas relevantes. Nesse contexto, o levantamento publicado pela SET apresenta a inovação tecnológica e a manutenção das características históricas do meio como elementos que precisam ser conciliados.

O estudo também evidencia que a incorporação da IA não se limita à substituição de atividades existentes. As ferramentas podem contribuir para ampliar a presença multiplataforma das emissoras, adaptar conteúdos para diferentes ambientes digitais e desenvolver novos formatos de comunicação. Ao mesmo tempo, sua utilização exige decisões relacionadas à qualidade editorial, à transparência e à definição dos limites da automação.

Levantamento reúne experiências de diferentes regiões do país

A pesquisa apresentada pela Revista da SET considera experiências de 19 emissoras das cinco regiões brasileiras, reunindo iniciativas que ajudam a compreender como a inteligência artificial está sendo incorporada ao setor. Por se tratar de um universo específico de análise, os percentuais apresentados não devem ser interpretados como indicadores representativos de todas as emissoras brasileiras, mas como um retrato das experiências investigadas pelos pesquisadores.

O trabalho também utiliza referências de publicações especializadas sobre radiodifusão, incluindo conteúdos divulgados pelo tudoradio.com, que acompanha a introdução de ferramentas de inteligência artificial nas operações das emissoras e seus possíveis impactos sobre o mercado.

A reportagem completa, assinada por Nair Prata, Nélia Del Bianco e Hélder Lima, pode ser consultada na edição 229 da Revista da SET, publicação da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão.

Principais descobertas do levantamento

Adoção recente: 47% das emissoras analisadas iniciaram o uso de IA generativa em 2025, enquanto 43% começaram em 2024.
Uso permanente ou experimental: 36,84% utilizam inteligência artificial permanentemente e outros 36,84% ainda estão em fase de experimentação.
Integração operacional: 44,44% apresentam baixa integração da IA aos processos internos, enquanto 16,67% registram integração elevada.
Preservação dos profissionais: 55,56% das emissoras pesquisadas não pretendem substituir trabalhadores em decorrência da adoção da tecnologia.
Supervisão jornalística: 38,24% das referências relacionadas ao jornalismo apontam a checagem humana como obrigatória.
Ferramentas utilizadas: ChatGPT e Gemini aparecem entre as plataformas mais mencionadas, com 26,47% e 17,65% das referências, respectivamente.
Principais aplicações: produção de conteúdo, transcrição, automação, monitoramento de informações, vozes sintéticas e distribuição multiplataforma.
Desafios identificados: integração das ferramentas às rotinas, preservação da identidade das emissoras, confiabilidade das informações e equilíbrio entre automação e participação humana.

Fonte: Revista da SET, edição 229. Levantamento assinado por Nair Prata, Nélia Del Bianco e Hélder Lima.

Avanço da IA acompanha tendências já observadas no mercado de áudio

Os resultados apresentados pela Revista da SET também dialogam com movimentos acompanhados pelo tudoradio.com na editoria de Tendências. Em setembro, o portal destacou como a inteligência artificial amplia as possibilidades de automação e transformação digital das emissoras, com aplicações que vão da produção de conteúdo à gestão administrativa e comercial. O cenário apresentado pela publicação brasileira acrescenta exemplos práticos e dados sobre o estágio de adoção dessas ferramentas no país.

A preocupação com a preservação da participação humana também encontra correspondência em pesquisas internacionais. Conforme levantamento divulgado pelo tudoradio.com em julho, parte dos ouvintes norte-americanos apresenta dificuldade para diferenciar vozes humanas de locuções produzidas por inteligência artificial, mas demonstra preocupação com a transparência sobre o uso da tecnologia. Mais recentemente, outro estudo mostrou resistência à substituição de apresentadores de podcasts por versões geradas por IA, reforçando a importância da identificação do público com os comunicadores.

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Daniel Starck

Daniel Starck

Jornalista, empresário e proprietário do tudoradio.com, maior portal brasileiro dedicado à radiodifusão, com mais de 20 anos no ar. É formado em Comunicação Social pela PUC-PR e teve passagens por emissoras como CBN, Rádio Clube e Rádio Paraná. Atua como consultor e palestrante nas áreas artística e digital do rádio, com participação em eventos promovidos por entidades como SET, AESP, AMIRT, ACAERT, ASSERPE, AERP e MidiacomPB. Também possui conhecimento na área de tecnologia, com foco em aplicativos, mídia programática, novos devices, inteligência artificial, sites e streaming.

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