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Ataques à imprensa somam mais de 14 mil registros durante o primeiro turno das eleições de 2026, aponta relatório

Ataques à imprensa somam mais de 14 mil registros durante o primeiro turno das eleições de 2026, aponta relatório

Brasília - Levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo aponta crescimento de 74% na média diária de agressões contra jornalistas e veículos de comunicação nas redes sociais durante a campanha eleitoral


A Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor) divulgou um relatório que aponta o crescimento da violência contra jornalistas e veículos de comunicação durante o primeiro turno das eleições gerais de 2026. O levantamento identificou 14.182 ataques à imprensa nas plataformas X (antigo Twitter) e Instagram, a partir da análise de quase 3,7 milhões de publicações e comentários entre 16 de agosto e 4 de outubro. O estudo também mostra que a média diária de agressões aumentou aproximadamente 74% entre o início e a reta final da campanha eleitoral, além de apontar uma concentração expressiva de ataques contra mulheres jornalistas e veículos de alcance nacional.

O monitoramento foi realizado pela CDJor, iniciativa que reúne dez organizações voltadas à defesa da liberdade de imprensa e à proteção de jornalistas, em colaboração com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). A análise também contou com a participação do ITS Rio, responsável pela avaliação da toxicidade dos conteúdos identificados nas redes sociais.

De acordo com o relatório, os ataques cresceram de forma significativa ao longo do período eleitoral. Entre 16 e 29 de agosto, foram contabilizadas 2.630 agressões. Na etapa seguinte, de 30 de agosto a 12 de setembro, o número subiu para 4.400 registros, representando um avanço de 67,3%. Entre 13 e 26 de setembro, foram identificados outros 4.537 ataques, enquanto os oito dias finais do monitoramento concentraram 2.615 ocorrências.

Apesar da redução no número absoluto de registros na última etapa, o documento destaca que a frequência diária de agressões continuou aumentando. A média passou de 188 ataques por dia no início da campanha para 314 na segunda etapa, 324 na terceira e 327 ataques diários na reta final do primeiro turno.

Instagram concentra maior volume de ataques, mas X apresenta maior frequência proporcional

A distribuição dos registros também apresentou diferenças entre as plataformas monitoradas. O Instagram concentrou 8.768 ataques, equivalentes a 61,8% do total, enquanto o X respondeu por 5.414 ocorrências, ou 38,2%.

Entretanto, quando considerado o universo de publicações e comentários analisados em cada plataforma, o X apresentou uma frequência proporcionalmente maior de agressões. Na última etapa do levantamento, inclusive, houve uma inversão na distribuição dos registros, com 1.382 ataques identificados no X, contra 1.233 no Instagram.

Outro aspecto observado foi o teor das mensagens. O relatório identificou que parte das agressões não envolveu necessariamente ameaças ou insultos explícitos, mas buscou desacreditar o trabalho jornalístico por meio de acusações de parcialidade, manipulação de informações e supostos interesses financeiros.

Expressões como "imprensa militante", "mídia golpista", "fake news", "pesquisa comprada" e "caiu o Pix" estiveram entre os termos recorrentes identificados pelo monitoramento. Segundo a análise, essas mensagens frequentemente deslocaram o debate sobre o conteúdo das reportagens para questionamentos sobre a credibilidade e as intenções de jornalistas e organizações de comunicação.

A avaliação de toxicidade realizada pelo ITS Rio também apontou diferenças entre as plataformas. Na última etapa da campanha, o X apresentou média de 40,4% no indicador de toxicidade, enquanto o Instagram registrou 21,6%. A ferramenta utilizada estima a probabilidade de uma mensagem ser percebida como tóxica, não representando o percentual de conteúdos classificados como ataques.

Mulheres jornalistas concentram quase 80% dos ataques em setembro

A violência direcionada às mulheres também ganhou destaque no levantamento. Entre 13 e 26 de setembro, as jornalistas concentraram 77,3% dos ataques dirigidos a profissionais específicos no X e 79,1% no Instagram. Os índices foram registrados mesmo com quantidades relativamente próximas de homens e mulheres identificados como alvos das agressões.

O relatório aponta que, além das acusações relacionadas à atuação profissional, mulheres jornalistas também enfrentaram insultos misóginos e sexuais, exposição pessoal e ameaças à integridade física.

Entre os episódios mencionados está o da jornalista Juliana Dal Piva, que recebeu 94 ataques identificados no X durante a repercussão de sua cobertura sobre áudios envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira e o empresário Daniel Vorcaro, no contexto do caso Banco Master.

Outro caso destacado envolve a jornalista Maria Cristina Fernandes, que se tornou alvo de uma onda de ataques após um comentário na GloboNews sobre Nossa Senhora Aparecida. Entre 13 e 26 de setembro, foram identificadas 226 agressões direcionadas à profissional no X. No Instagram, o levantamento também encontrou conteúdos com incitação à violência física e à morte.

Cobertura presidencial concentra quase 80% das agressões relacionadas às eleições

A cobertura da disputa presidencial concentrou a maior parte dos ataques diretamente associados ao contexto eleitoral. Dos 9.178 registros classificados segundo essa característica, 7.314 estiveram relacionados à eleição presidencial, o equivalente a 79,7%, enquanto 1.864 envolveram disputas estaduais.

Entre os estados, São Paulo acumulou o maior número de ataques associados às eleições regionais, com 424 registros. Na sequência aparecem Minas Gerais (343), Bahia (187), Pernambuco (186) e Ceará (153).

O levantamento destaca que as disputas estaduais também influenciaram a distribuição das agressões ao longo da campanha. Entre 13 e 26 de setembro, por exemplo, Ceará e Pernambuco passaram a liderar os registros relacionados às eleições regionais, em meio à repercussão das disputas pelos governos estaduais.

Grandes veículos de comunicação também aparecem entre os principais alvos

Os ataques identificados pela Coalizão em Defesa do Jornalismo não ficaram restritos a profissionais individualmente. Organizações jornalísticas de alcance nacional também foram frequentemente atingidas, especialmente durante a repercussão de reportagens, entrevistas, pesquisas eleitorais e comentários políticos.

No X, o portal g1 esteve entre os principais alvos durante a campanha. Entre 16 e 29 de agosto, foram registrados 390 ataques ao veículo. Já na última etapa, de 27 de setembro a 4 de outubro, o portal voltou a liderar os registros, com 204 ocorrências, seguido pela GloboNews, com 187, e pela CNN Brasil e Folha de S.Paulo, com 96 cada.

No Instagram, a GloboNews também apresentou números expressivos, incluindo 235 ataques entre 13 e 26 de setembro. Na última etapa, a Folha de S.Paulo liderou os registros da plataforma, com 94 ocorrências, seguida por GloboNews (60) e Estadão (56).

O documento ressalta que a presença recorrente de grandes veículos entre os principais alvos deve ser considerada em relação à circulação e ao alcance de seus conteúdos. Ao mesmo tempo, alerta que organizações regionais e independentes também enfrentam situações de violência, que podem comprometer a continuidade de suas coberturas jornalísticas.

Relatório também alerta para pressão judicial contra a atividade jornalística

Além dos ataques nas plataformas digitais, o estudo dedica parte de sua análise ao uso de instrumentos judiciais para tentar restringir a circulação de conteúdos jornalísticos durante o período eleitoral.

Segundo a CDJor, foram identificadas ações propostas contra veículos e profissionais de imprensa sob alegações de propaganda eleitoral negativa, inclusive em situações envolvendo reportagens baseadas em fatos de interesse público.

O relatório apresenta exemplos de decisões judiciais que determinaram a remoção de conteúdos, além de casos nos quais magistrados reconheceram a necessidade de preservar a liberdade de expressão e de imprensa no debate político.

A entidade também chama a atenção para os riscos de intimidação decorrentes dessas iniciativas, especialmente quando processos judiciais são utilizados para contestar publicações críticas a candidatos ou agentes públicos.

Ao avaliar os resultados do primeiro turno, a Coalizão em Defesa do Jornalismo ressalta que a violência contra a imprensa ultrapassa o ambiente digital, podendo resultar em ameaças, agressões físicas e dificuldades para a realização de coberturas de interesse público.

O documento conclui que o crescimento dos ataques ao longo da campanha eleitoral representa um alerta para a proteção dos profissionais de comunicação e para a própria circulação de informações. A organização também defende o fortalecimento dos mecanismos de denúncia e apoio aos jornalistas que enfrentam ameaças, intimidações e outras formas de violência em decorrência da atividade profissional.

O relatório, intitulado "Cobrir as eleições, enfrentar a violência: uma análise dos ataques à imprensa no primeiro turno de 2026", reúne dados e análises referentes ao período de 16 de agosto a 4 de outubro, além de orientações sobre canais de denúncia e redes de proteção a profissionais da comunicação.

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Carlos Massaro

Carlos Massaro

  • Carlos Massaro – Radialista e jornalista, já atuou como coordenador artístico da Band FM de Promissão/SP e como locutor nas afiliadas da Band FM em Ourinhos/SP e na Interativa FM de Avaré/SP. Também trabalhou como jornalista na Hot 107 FM 107.7 de Lençóis Paulista/SP, além da Jovem Pan FM 88.9 e Divisa FM 93.3, ambas de Ourinhos/SP. É advogado inscrito na OAB/SP e membro efetivo regional da Comissão Estadual de Defesa do Consumidor da OAB/SP. Está no tudoradio.com desde 2009, sendo responsável pela atualização diária da redação do portal. LinkedIn
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