




Quarta-Feira, 22 de Abril de 2026 @ 09:12
Las Vegas (EUA) - Executivos do setor analisam os impactos do scraping por inteligência artificial e discutem estratégias para proteger, monetizar ou permitir o uso de conteúdo jornalístico por plataformas automatizadas
O avanço das plataformas de inteligência artificial e o uso crescente de bots para coleta de conteúdo jornalístico dominaram um dos debates do NAB Show, em Las Vegas. Com o tema “The AI Bot Blocking Strategy: Feed the Bots or Fight Back?”, o painel reuniu executivos de empresas de mídia para discutir os efeitos do chamado AI scraping sobre o modelo de negócios do rádio e do jornalismo local. O tudoradio.com realiza uma cobertura especial do NAB Show 2026, com os apoios da ABERT, a BeAudio, a AMIRT e a MidiacomPB.
A abertura do painel foi conduzida por Keyana Pusey, da NAB, que apresentou um panorama técnico e estratégico sobre o funcionamento desses sistemas. Segundo ela, as plataformas de IA deixaram de atuar apenas como mecanismos de indexação e passaram a realizar aquisição contínua e em larga escala de conteúdo, com o objetivo de treinar modelos e gerar respostas diretas aos usuários, muitas vezes sem redirecionar o público às fontes originais.
Esse cenário, de acordo com a executiva, já impacta diretamente métricas fundamentais do setor, como tráfego, publicidade e assinaturas, criando um dilema para os radiodifusores: restringir o acesso ou permitir o uso visando possíveis ganhos indiretos.
Bloqueio não é solução única e envolve múltiplas camadas
Durante a apresentação, Pusey enfatizou que o conceito de bloquear bots é mais complexo do que aparenta. Não existe uma solução única ou um mecanismo definitivo. Na prática, trata-se de uma combinação de estratégias aplicadas em diferentes camadas da infraestrutura digital.
Entre as principais abordagens, foram destacados quatro grupos: controles no nível do site, como o uso de arquivos robots.txt, que indicam permissões de acesso aos crawlers; controles de servidor e firewall, que permitem bloquear ou filtrar acessos com base em IP, padrões de tráfego e frequência de requisições; sistemas de detecção e gerenciamento de bots, que utilizam análise comportamental para diferenciar tráfego humano de automatizado; e ferramentas de monitoramento e analytics, que não bloqueiam diretamente, mas fornecem dados para orientar decisões estratégicas.
Mesmo com essas ferramentas, a executiva destacou que o processo é dinâmico e desafiador, comparando-o a um “jogo de whack-a-mole”, em que novas formas de scraping surgem constantemente à medida que medidas de bloqueio são implementadas.
Outro ponto central levantado foi que a decisão sobre bloquear ou não não é apenas técnica. Ela envolve objetivos estratégicos da organização, como controle de uso de conteúdo, monetização e posicionamento no ecossistema digital.
Estratégias distintas entre empresas do setor
Na sequência, o moderador Nandu Machiraju, também da NAB, conduziu o debate entre os executivos convidados, evidenciando diferentes abordagens adotadas pelas empresas.
Jeremy Sinon, da Hubbard Radio, ressaltou o caráter ainda incipiente e complexo do tema. Ele destacou que, na prática, muitos dos mecanismos básicos de controle, como o robots.txt, têm eficácia limitada. Segundo o executivo, a situação pode ser comparada a um pedido simbólico que nem sempre é respeitado pelos agentes automatizados.
Sinon também chamou atenção para o crescimento acelerado do problema, que não existia com a mesma intensidade poucos anos atrás, e hoje demanda esforço constante das equipes técnicas. Além disso, alertou para o impacto operacional, como o aumento significativo no consumo de banda e infraestrutura causado pelo tráfego de bots.
Outro ponto destacado por ele é que o scraping não se restringe a textos. Plataformas de IA estão coletando também áudios, vídeos, imagens e podcasts, ampliando o alcance e o impacto sobre o conteúdo produzido pelas empresas de mídia.
Monitoramento e abordagem cautelosa
Sun Sachs, da Townsquare Media, apresentou uma estratégia mais flexível. Segundo ele, a empresa adota uma postura permissiva, permitindo o scraping, mas com monitoramento constante.
O executivo destacou que o crescimento do tráfego automatizado já gera custos relevantes e pode, em um cenário próximo, superar o volume de acessos humanos. Esse movimento levanta preocupações sobre sustentabilidade financeira e eficiência operacional.
Apesar disso, Sachs ponderou que bloquear completamente pode trazer efeitos colaterais indesejados, como impedir que conteúdos sejam descobertos por usuários que utilizam ferramentas de IA para busca e consumo de informação. Por isso, a estratégia da empresa envolve ajustes contínuos e decisões táticas, incluindo bloqueios temporários em nível de servidor quando necessário.
Proteção de conteúdo e disputa por valor
Já Bill Gaffney, da Gray Media, apresentou uma visão mais crítica em relação às plataformas de IA. Para ele, o tema deve ser tratado principalmente sob a ótica de direitos autorais e valor econômico do conteúdo jornalístico.
O executivo destacou que empresas como a Gray investem significativamente na produção de conteúdo local, com equipes dedicadas e presença nas comunidades. Nesse contexto, ele argumenta que existe um valor claro nesse material, que historicamente foi sustentado por um modelo de troca — seja via tráfego, monetização ou parcerias com plataformas digitais.
Segundo Gaffney, esse equilíbrio foi rompido com o avanço das plataformas de IA, que utilizam o conteúdo sem necessariamente oferecer contrapartidas. Ele classificou esse movimento como uma forma de extração de valor, sem o retorno esperado para os produtores.
Diante disso, a estratégia da empresa tem sido priorizar a proteção do conteúdo e restringir o acesso, ao mesmo tempo em que se mantém aberta a negociações que estabeleçam novas formas de remuneração ou licenciamento.
Consenso: não há resposta única
Ao longo do painel, ficou evidente que o setor ainda busca um caminho comum diante do avanço da inteligência artificial. As estratégias variam entre bloqueio, liberação controlada ou modelos híbridos, sempre considerando riscos e oportunidades.
Entre os pontos de convergência, os participantes destacaram a distinção entre “bons” e “maus” bots, o impacto crescente sobre infraestrutura e custos operacionais, a necessidade de envolver áreas técnicas, jurídicas e estratégicas nas decisões e a ausência, até o momento, de um modelo consolidado de compensação pelo uso de conteúdo por plataformas de IA.
Como conclusão, o debate reforçou que a discussão vai além da tecnologia. Trata-se de uma redefinição do relacionamento entre produtores de conteúdo e plataformas digitais, com implicações diretas sobre o futuro do jornalismo e do rádio.
O tema deve seguir no centro das atenções da indústria nos próximos anos, à medida que a inteligência artificial amplia sua presença na forma como conteúdos são consumidos, distribuídos e monetizados.

Cobertura NAB Show 2026 tudoradio.com
O tudoradio.com acompanha novamente o NAB Show direto do Las Vegas Convention Center, local onde será realizada a feira e o congresso entre 18 e 22 de abril, nos Estados Unidos, em trabalho realizado com a Mentoria Cristiano Stuani. Toda a programação paralela ao NAB Show, realizada para radiodifusores brasileiros, também terá atenção especial na cobertura. A Cobertura NAB Show 2026 tudoradio.com tem como parceiros apoiadores a ABERT, a BeAudio, a AMIRT e a MidiacomPB.
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