




Segunda-Feira, 05 de Janeiro de 2026 @ 06:46
São Paulo - Movimento registrado nos EUA reflete desafios globais e acende alerta para possíveis impactos em equipes de rádio, especialmente comunicadores, diante da automação e de decisões de corte de custos
O mercado de mídia e entretenimento dos Estados Unidos encerrou 2025 com um saldo de mais de 17 mil cortes de empregos, resultado de um cenário marcado por reestruturações, fusões empresariais e pelo avanço da inteligência artificial nas rotinas operacionais das companhias. Embora os dados estejam concentrados no ambiente norte-americano, os desafios observados por lá refletem uma realidade que também afeta o setor em outros mercados importantes, como Brasil e Europa, onde mudanças estruturais, adoção de novas tecnologias e alterações nos hábitos de consumo têm exigido adaptações constantes, inclusive com alertas sobre o risco de cortes em equipes artísticas e de comunicadores no rádio.
Segundo levantamento da consultoria Challenger, Gray & Christmas, os desligamentos ocorreram em diferentes segmentos da indústria, incluindo televisão, cinema, rádio, jornais e plataformas de streaming. O cenário amplia uma tendência observada nos últimos anos, em que transformações tecnológicas, mudanças no comportamento do público e processos de consolidação empresarial vêm impactando diretamente a força de trabalho do setor.
As redações jornalísticas, abrangendo veículos impressos, digitais e emissoras, foram responsáveis por 2.254 dos cortes, número que inclui 179 desligamentos apenas no mês de novembro. Apesar do volume, o total representa uma queda de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando mais de 4,5 mil postos de trabalho haviam sido encerrados nesse segmento.
De acordo com a Challenger, as justificativas mais recorrentes para os cortes foram reestruturações internas e processos de fusão. Um dos principais exemplos foi a aprovação da fusão entre Paramount Global e Skydance Media pela Federal Communications Commission (FCC), movimento que resultou em demissões nas operações de entretenimento da Paramount. A Disney também promoveu cortes ao longo do ano como parte de um plano de contenção de custos iniciado em 2023, em meio à queda de assinaturas da TV por assinatura e ao avanço do consumo via streaming.
Outro fator que tem ganhado peso nas decisões de redução de equipes é a ampliação do uso da inteligência artificial. Pesquisa do Fórum Econômico Mundial aponta que 41% das empresas esperam reduzir seus quadros de pessoal nos próximos cinco anos em razão da automação baseada em IA. Apesar disso, o retorno financeiro dessas iniciativas ainda não se mostrou plenamente consistente em todos os casos. Em contrapartida, o mesmo estudo projeta crescimento expressivo em áreas como big data, fintechs e inteligência artificial, com expectativa de dobrar o número de empregos até 2030.
O volume de desligamentos no setor de mídia acompanha um cenário mais amplo de enfraquecimento do mercado de trabalho. Apenas no mês de novembro, empresas anunciaram mais de 71 mil cortes de vagas em diferentes setores da economia, segundo dados da Challenger. Foi o segundo maior total mensal dos últimos cinco anos, ficando atrás apenas de 2022.
Segundo a consultoria, desde a crise financeira de 2008 as empresas passaram a evitar a concentração de anúncios de demissões no fim do ano. Entre 2010 e 2017, o setor de mídia registrava, em média, 7.305 cortes anuais. A partir de 2018, essa média praticamente dobrou, alcançando 14.298 desligamentos por ano.
Apesar do cenário de retração, um dos poucos segmentos em crescimento dentro do setor de entretenimento tem sido a economia de criadores de conteúdo. Dados do U.S. Bureau of Labor Statistics indicam que o emprego nas indústrias de cinema e gravação sonora em Los Angeles caiu 27% entre 2022 e 2024. No mesmo período, o número de empregos e de empresas ligadas à creator economy cresceu cerca de 5%.
Com a fragmentação de audiência e a disputa crescente pela atenção do público, empresas de mídia têm recorrido cada vez mais à automação. A Challenger estima que mais de 54 mil cortes em 2025 tiveram relação direta com iniciativas envolvendo inteligência artificial. Em meio a esse cenário, o estado de Nova York se tornou o primeiro dos Estados Unidos a exigir que empresas informem oficialmente quando a IA for o motivo de uma demissão.
Importância estratégica do talento humano: especialistas alertam para o risco de cortes em comunicadores de rádio
Paralelamente a esse movimento, especialistas do setor de rádio têm reforçado que o comunicador segue sendo um dos principais diferenciais competitivos do meio, especialmente em um ambiente de consumo cada vez mais multiplataforma. Análises recentes indicam que decisões de corte envolvendo equipes artísticas podem comprometer a identidade das emissoras e enfraquecer a conexão com o público, sobretudo no conteúdo local e ao vivo.
Estudos e debates recentes destacam que, embora a automação traga ganhos operacionais, a presença humana continua sendo central para a experiência do ouvinte. Empatia, credibilidade e vínculo emocional são atributos associados ao comunicador que ainda não foram plenamente replicados por soluções automatizadas. Nesse contexto, especialistas alertam que reduções excessivas nessas equipes podem gerar impactos negativos de médio e longo prazo.
Outro ponto sensível é a rejeição crescente do público ao uso de vozes geradas por inteligência artificial no conteúdo em áudio. Pesquisas recentes apontam que parte significativa da audiência percebe esse tipo de recurso como menos autêntico, o que tem levado grupos internacionais a reforçarem estratégias que ampliam a presença de seus comunicadores em diferentes plataformas. Assim, mesmo diante da pressão por eficiência e redução de custos, o talento humano permanece como um ativo central para a sustentabilidade e relevância do rádio.
Um relatório da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia reforça esse alerta ao afirmar que, embora atualmente a IA atue como ferramenta de apoio, não há garantias de que esse equilíbrio será mantido. Segundo o estudo, a tecnologia já atingiu maturidade suficiente para substituir parte das funções jornalísticas, seja de forma direta ou pela redução da necessidade de mão de obra.
Veja também:
> Especialistas reforçam que comunicador é diferencial competitivo do rádio e alertam para riscos de cortes em equipe
> Estudo da Jacobs Media aponta sobrecarga e alto estresse entre profissionais do rádio
> Avanço no uso de metadados no streaming reforça posição das rádios brasileiras na concorrência digital
> Inteligência Artificial: agentes digitais ganham protagonismo em mídia e entretenimento durante o IBC2025
> Estudo aponta queda na efetividade de comerciais de rádio com uso indiscriminado de inteligência artificial

crédito: depositphotos.com
Com informações do portal Inside Radio


