




Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2026 @ 06:48
São Paulo - Especialistas reunidos no Paris Radio Show destacam a força do rádio na França e os desafios para manter o meio competitivo nos painéis dos veículos conectados
O futuro do áudio nos automóveis foi um dos principais temas debatidos durante o Paris Radio Show, realizado neste mês na França. O evento de 2026 concentrou atenções em estratégias voltadas ao futuro, novas formas de engajamento de audiência e na evolução do consumo de áudio (deixando de lado o saudosismo, de acordo com a mídia especializada), com discussões que passaram por inteligência artificial, direção autônoma, digitalização e os desafios para manter o rádio relevante no painel dos carros conectados. Essa linha de trabalho tem sido central em vários mercados de rádio, inclusive no Brasil, onde a melhor presença do FM e do streaming de rádio está no foco do setor. Problemas como a “imagem do rádio” enquanto percepção também foram temas centrais.
De acordo com o que foi apresentado durante o Paris Radio Show, dados recentes apontam que 38 milhões de franceses ouvem rádio diariamente, por uma média de 2 horas e 50 minutos, enquanto o mercado acompanha o avanço do DAB+ e a necessidade de reposicionar o valor do meio diante das novas plataformas digitais. A França não era um dos países mais avançados no assunto até 2019, mas observou um salto na digitalização nos últimos anos.
A programação do evento foi aberta com um panorama do consumo de áudio na França, considerando rádio e podcasts. O rádio segue em posição consolidada no país, enquanto o desempenho dos podcasts ainda não alcança o mesmo patamar observado em outros mercados europeus. O diagnóstico reforça um cenário de estabilidade para o meio tradicional, mas com a necessidade de adaptação às novas dinâmicas digitais.
No recorte específico do áudio nos automóveis, um dos pontos centrais foi a chegada gradual dos veículos autônomos. Antes da popularização completa dessa tecnologia para o público em geral, os chamados táxis autônomos devem funcionar como laboratório para testar e aprimorar a experiência do usuário a bordo. Nesse contexto, surge a pergunta que permeou os debates: como tornar o rádio atraente no novo ambiente do “cockpit hub”, cada vez mais digital e multifuncional?
O redesenho dos painéis tem levado montadoras a cogitar, em alguns casos, a retirada do rádio tradicional dos veículos. Diante desse cenário, representantes da indústria de áudio seguem mobilizados para sensibilizar governos e defender a permanência obrigatória do rádio nos carros nos próximos anos. Ainda assim, foi consenso entre os participantes que o lobby regulatório, por si só, não garante a aliança de longo prazo entre o rádio e os carros conectados e autônomos.
Alternativas para o rádio
Entre as alternativas apresentadas para fortalecer essa presença estão as interfaces avançadas, como agregadores digitais de rádio (o tudo.radio e o APP Tudo Rádio são exemplos no caso brasileiro) e o DTS AutoStage, da Xperi, que ampliam a experiência do ouvinte ao integrar capas de álbuns, logotipos das emissoras, informações sobre a programação em tempo real, podcasts e conteúdos sob demanda. A proposta é oferecer uma navegação mais rica e intuitiva, alinhada às expectativas do usuário habituado aos serviços digitais.
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Stéphane Darriet, da Forvia, destacou que não é possível obrigar o público a ouvir rádio ou as montadoras a priorizarem o meio, mas que o sucesso virá ao demonstrar que o rádio pode ser criativo, inovador e visualmente atraente dentro do painel digital. Ele citou exemplos da China, onde, segundo o executivo, os carros já apresentam conteúdos de mídia mais dinâmicos e integrados ao ecossistema digital.
Outro eixo importante dos debates foi a personalização do áudio. Frédéric Gerand, diretor de áudio da RTBF, emissora pública da Bélgica, reforçou que o setor precisa comunicar seu produto de forma contemporânea, com foco na experiência do usuário (UX). Segundo ele, o rádio ao vivo continua sendo parte essencial da jornada do ouvinte, especialmente por entregar cultura e informação confiável em tempo real, atributos que ainda mantêm elevada relevância no cenário atual.
Na mesma linha, Carine Fillot, da Elson Media, apresentou estratégias para aprimorar a comunicação e a descoberta de podcasts e emissoras. Entre as recomendações estão a otimização de perfis de busca, o uso adequado de metadados, a atualização constante de conteúdos e o fortalecimento de comunidades de ouvintes. A especialista também alertou que, em tempos de inteligência artificial, a diferenciação passa por experiências e abordagens pessoais, já que ferramentas automatizadas tendem a replicar conteúdos já existentes.
Avanço do rádio digital terrestre
O evento também dedicou espaço significativo ao DAB+ e à digitalização do rádio na França, destacando o ritmo acelerado de implantação do padrão no país. Romain Laleix, do órgão regulador Arcom, apresentou dados recentes de audiência que reforçam a força do meio: 38 milhões de pessoas sintonizam rádio diariamente, com consumo médio próximo de três horas por dia.
Durante os painéis, houve comparações entre as metodologias de medição de audiência do rádio e das redes sociais. Enquanto plataformas digitais validam o consumo a partir de poucos segundos de visualização, o rádio adota critérios mais rígidos para considerar a audiência efetiva, o que, segundo os debatedores, reforça a qualidade do engajamento do meio.
No evento, realizado às vésperas do Dia Mundial do Rádio, comemorado no último dia 13 de fevereiro, o fundador da conferência, Philippe Chapot, defendeu que o setor precisa de “regras com força” e profissionais preparados para defender seus interesses. Em analogia à Europa medieval, comparou a postura passiva de quem acredita que o rádio sobreviverá automaticamente à de alguém isolado em uma torre, cercado por ameaças externas.
Não é um problema de consumo, mas sim de imagem do meio
A mensagem final do encontro foi a de que o rádio não enfrenta um problema de consumo, mas sim de percepção de valor, algo que também tem sido constatado no mercado brasileiro. Milhões continuam ouvindo diariamente, porém o setor precisa comunicar melhor sua proposta e reforçar sua relevância cultural, informativa e social, destacam executivos europeus. Isso está em linha com a agenda proposta para o meio no Brasil, por meio de associações do setor como a ABERT, como já destacado anteriormente pelo tudoradio.com.
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Ilustração / tudoradio.com
Com informações do RadioToday UK e colaboração de David Duck


