Tudo Rádio
ÚLTIMAS DA
REDAÇÃO
TendênciasCarlos Massaro

“Rádio 3.0 não é uma nova tecnologia, mas um conceito que organiza o ecossistema do rádio”, destaca painel no MidiacomPB

“Rádio 3.0 não é uma nova tecnologia, mas um conceito que organiza o ecossistema do rádio”, destaca painel no MidiacomPB

Campina Grande - Daniel Starck e Cristiano Stuani apresentaram no II Encontro MidiacomPB o conceito desenvolvido com a ABERT, que integra FM, streaming, plataformas conectadas, inteligência artificial e novas oportunidades comerciais.


O conceito de Rádio 3.0, que propõe uma visão ampliada do rádio como um ecossistema de distribuição de conteúdo, relacionamento com a audiência e oportunidades comerciais, foi um dos destaques do II Encontro MidiacomPB, realizado na Paraíba. O tema foi apresentado pelos consultores Daniel Starck, jornalista e diretor do tudoradio.com, e Cristiano Stuani, especialista em gestão artística, produto e transformação digital do rádio, durante o painel “Rádio 3.0: O rádio que saiu do aparelho e virou ecossistema”. A apresentação, mediada pela jornalista Alais Cavalcanti, detalhou como o meio vem ampliando sua presença para além dos receptores tradicionais, mantendo o áudio como elemento central de sua atuação.

A abordagem apresentada no encontro é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de 2026, a partir de um estudo realizado em conjunto com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT). O objetivo foi organizar, em uma representação visual denominada mandala do Rádio 3.0, as diferentes plataformas, tecnologias e frentes de atuação que atualmente compõem o universo das emissoras. Segundo os painelistas, a proposta não representa a criação de uma nova tecnologia, mas a consolidação de um conceito capaz de traduzir a evolução do rádio e ampliar a percepção de seu valor perante ouvintes, anunciantes e o próprio mercado.

O rádio mantém sua força, mas precisa acompanhar novos hábitos

A apresentação começou com um panorama do consumo de rádio no Brasil e em outros mercados internacionais. Entre os indicadores destacados estão o alcance de 83% da população nos 13 mercados brasileiros pesquisados pela Kantar IBOPE Media e o tempo médio de consumo de 3 horas e 38 minutos. Os números foram utilizados para demonstrar a relevância do meio, mas também para reforçar que a manutenção desses resultados depende da capacidade das emissoras de acompanhar mudanças no comportamento dos consumidores.

Cristiano Stuani chamou a atenção para a necessidade de compreender a jornada da audiência, identificando os diferentes momentos e dispositivos utilizados para acessar a programação. Como exemplo, relatou uma experiência durante o deslocamento para o evento, quando o motorista de um veículo da BYD afirmou nunca ter utilizado o receptor de rádio do automóvel, apesar de possuir o carro havia aproximadamente um ano.

O episódio foi relacionado ao debate internacional sobre a presença do rádio nos automóveis, especialmente diante do avanço dos sistemas multimídia conectados. Daniel Starck destacou que o setor tem se mobilizado para preservar a acessibilidade ao rádio nos veículos, citando iniciativas regulatórias na Europa e discussões nos Estados Unidos sobre a manutenção dos receptores AM e FM.

A discussão também reforçou a importância de observar a complementaridade entre as plataformas, considerando que o consumo de conteúdo radiofônico pode ocorrer pelo receptor convencional, pelo smartphone, pelos sistemas automotivos ou por outros dispositivos conectados.

Rádio 3.0 organiza um ecossistema que já existe

Um dos pontos centrais do painel foi a apresentação da mandala do Rádio 3.0, que reúne 13 elementos associados à operação contemporânea das emissoras. Entre eles estão streaming, agregadores, aplicativos próprios, Apple CarPlay, Android Auto, rádio híbrido, receptores, RDS, redes sociais, portais, eventos, projetos especiais e inteligência artificial.

35dd970a 1f00 4a37 9185 929bd7835664.jpg

A proposta parte do princípio de que o áudio continua sendo o principal produto do rádio, mas sua distribuição e suas possibilidades de exploração passaram a envolver uma quantidade crescente de ambientes e ferramentas. Dessa forma, a programação pode ser consumida pelo FM durante um deslocamento, continuar no streaming durante o trabalho e gerar novos pontos de contato por meio das redes sociais ou de conteúdos audiovisuais.

“Todo mundo que carrega áudio é um rádio potencial. Essa é a nossa lógica”, afirmou Starck durante a apresentação, ao explicar que a presença do rádio em diferentes equipamentos não deve ser tratada como uma atividade secundária, mas como parte da própria identidade do meio.

O jornalista também ressaltou a necessidade de atualizar a maneira como o setor apresenta sua atuação ao mercado publicitário. Segundo ele, a associação exclusiva do rádio ao aparelho tradicional pode transmitir uma percepção limitada de um meio que já opera em diferentes plataformas e ambientes conectados.

Stuani reforçou que a mandala foi concebida justamente para organizar atividades que muitas emissoras já realizam, ainda que de maneira dispersa. A proposta é permitir que cada operação identifique suas frentes de atuação, avalie a qualidade da entrega e estabeleça prioridades de desenvolvimento.

Outro esclarecimento feito pelos painelistas foi a distinção entre Rádio 3.0 e rádio híbrido. Enquanto o primeiro representa o conceito mais amplo de ecossistema, o segundo corresponde a uma das tecnologias que podem integrar essa estrutura, combinando a recepção terrestre com recursos de conectividade e dados.

Streaming e plataformas conectadas ampliam o alcance do dial

A integração entre radiodifusão e streaming também recebeu atenção especial durante o painel. Os participantes destacaram que a distribuição digital deve ser entendida como uma continuidade da audiência, permitindo que o ouvinte permaneça conectado à emissora mesmo quando não dispõe de um receptor convencional.

Um dos dados apresentados foi o incremento de alcance proporcionado pelo streaming em relação ao dial, com base no Extended Radio, da Kantar IBOPE Media. Segundo os números mencionados durante a apresentação, esse indicador passou de 34%, em 2024, para 70% em levantamento mais recente. A ferramenta considera a audiência sem duplicidade entre as plataformas, permitindo identificar o alcance adicional proporcionado pelo consumo digital.

Para os painelistas, esses resultados reforçam a necessidade de tratar o streaming com a mesma atenção dedicada ao sinal terrestre. Isso envolve estabilidade, qualidade sonora, disponibilidade dos serviços e integração com aplicativos, agregadores e sistemas automotivos.

Stuani relatou uma experiência realizada em uma emissora de Curitiba durante a propaganda eleitoral obrigatória. A rádio orientou seus ouvintes a migrarem para o streaming, que não estava retransmitindo o horário eleitoral, e observou crescimento de 80% na audiência digital durante o período. O exemplo foi utilizado para demonstrar a capacidade de circulação da audiência entre diferentes plataformas quando existe comunicação adequada com o público.

Os painelistas também abordaram a presença das emissoras no Apple CarPlay e Android Auto, ambientes nos quais o rádio passa a disputar a atenção do consumidor com serviços de streaming musical, podcasts e outras aplicações. Nesse contexto, recursos como identificação visual, metadados e informações sobre a programação foram apontados como elementos importantes para uma experiência competitiva.

Rádio híbrido, RDS e a importância da experiência visual

A evolução do rádio nos automóveis foi outro tema de destaque. O painel abordou o avanço das soluções híbridas, que combinam a recepção terrestre com conectividade IP, permitindo oferecer informações adicionais, identificação visual e novas possibilidades de mensuração do consumo.

O assunto já havia sido acompanhado pelo tudoradio.com durante o NAB Show 2026, quando a Xperi apresentou avanços do DTS AutoStage, plataforma que integra o sinal de radiodifusão aos recursos digitais e amplia as possibilidades de análise de audiência e exploração comercial. A tecnologia representa uma das frentes de desenvolvimento do rádio híbrido, mas não deve ser confundida com a abrangência do conceito de Rádio 3.0.

Outra tecnologia destacada foi o RDS (Radio Data System), que permite transmitir informações de texto e identificação das emissoras nos receptores FM compatíveis. Embora não seja uma novidade, o recurso ganhou relevância diante do crescimento das telas nos automóveis e da expectativa dos consumidores por informações visuais associadas ao áudio.

Starck ressaltou que a identificação adequada da emissora, das músicas e de outros conteúdos contribui para uma experiência mais próxima daquela oferecida pelas plataformas digitais. Já Stuani alertou para problemas de configuração que podem prejudicar a recepção, provocar identificações incorretas ou até ocasionar a mudança automática para outra frequência.

A apresentação também trouxe exemplos de utilização comercial do RDS e de metadados, como a exibição de nomes de patrocinadores nas telas dos receptores. Segundo os painelistas, essas possibilidades demonstram que mesmo tecnologias já consolidadas podem abrir novas oportunidades para as emissoras quando utilizadas de maneira estratégica.

O tema também está relacionado às discussões regulatórias acompanhadas pelo portal. Em agosto, o tudoradio.com noticiou que a Anatel preparava uma revisão do Ato de Requisitos Técnicos nº 8.104/2022, incluindo propostas relacionadas à evolução do RDS e à modernização das condições técnicas de operação das emissoras FM.

Inteligência artificial, conteúdo e novas receitas

A inteligência artificial foi apresentada como outra frente de desenvolvimento do Rádio 3.0, com aplicações que vão além da automação de processos e da produção de conteúdo. Os painelistas destacaram seu potencial para aprimorar operações, desenvolver produtos, trabalhar o processamento de áudio e ampliar a capacidade de descoberta das emissoras nas ferramentas digitais.

Stuani mencionou a importância de as rádios organizarem suas informações na internet para que possam ser encontradas por mecanismos de busca e plataformas de inteligência artificial. A proposta envolve fortalecer a presença digital das marcas e facilitar sua identificação quando usuários procuram emissoras por cidade, perfil musical ou características de programação.

Também foram discutidas oportunidades comerciais associadas ao ecossistema, especialmente por meio de projetos especiais, eventos e soluções que integrem diferentes plataformas. Para os participantes, a expansão da presença digital deve ser acompanhada por uma estratégia capaz de transformar os novos pontos de contato com a audiência em produtos relevantes para anunciantes.

Nesse contexto, Starck destacou o valor da publicidade radiofônica como parte da própria experiência de consumo. Ao abordar indicadores sobre a receptividade dos ouvintes aos anúncios, defendeu que os espaços comerciais sejam tratados como conteúdo de interesse local, capazes de informar sobre serviços, eventos, oportunidades e atividades econômicas das cidades.

Stuani complementou a discussão ao questionar a maneira como as emissoras anunciam seus intervalos comerciais. Segundo o consultor, expressões que sugerem uma interrupção da programação podem desvalorizar um conteúdo que também integra o serviço prestado pelo rádio ao público.

Emissoras menores podem começar pela organização do que já fazem

Na etapa final do painel, Alais Cavalcanti questionou os participantes sobre os desafios enfrentados pelas emissoras de menor porte, especialmente aquelas que não dispõem dos mesmos recursos financeiros e tecnológicos das grandes operações.

Stuani recomendou que o primeiro passo seja utilizar a mandala do Rádio 3.0 como ferramenta de diagnóstico, identificando quais plataformas e atividades já estão presentes na operação. A partir desse levantamento, a emissora pode estabelecer prioridades, considerando a qualidade dos serviços, a capacidade de execução e o potencial de geração de audiência e receita.

“Organiza aquilo que você já tem”, afirmou o consultor, ressaltando que a proposta não exige a adoção imediata de todas as tecnologias disponíveis. Segundo ele, a presença em plataformas essenciais, como sites, redes sociais e streaming, pode ser aprimorada gradualmente, respeitando a realidade de cada empresa.

Starck acrescentou que, depois de identificar as atividades existentes, é necessário avaliar como elas se relacionam dentro da operação e de que maneira podem ser apresentadas ao público e ao mercado anunciante. O jornalista também destacou o papel das associações e da indústria no desenvolvimento de ferramentas que facilitam a entrada das emissoras em novos ambientes digitais.

A discussão reforçou que o Rádio 3.0 não depende exclusivamente de grandes investimentos, mas também de organização, planejamento e valorização das estruturas que as emissoras já possuem.

Conceito ganha espaço nos principais eventos do setor

A apresentação no II Encontro MidiacomPB deu continuidade a uma série de discussões sobre o Rádio 3.0 realizadas ao longo de 2026. O conceito ganhou exposição durante o NAB Show, em Las Vegas, e foi consolidado em junho com o lançamento do estudo “Rádio 3.0: relevância e força de estratégia para o mercado publicitário”, desenvolvido por Cristiano Stuani, Daniel Starck e Juliana Paiva, da RadioData, em conjunto com a ABERT.

Posteriormente, a proposta foi abordada em eventos nacionais, como o SET Expo 2026, em São Paulo, e internacionais, como o IBC2026, em Amsterdã. Nessas ocasiões, foram discutidos temas como a presença do rádio nos automóveis conectados, a integração entre plataformas, o uso de dados e inteligência artificial, além das oportunidades de desenvolvimento de novos produtos comerciais.

O estudo sobre o Rádio 3.0 está disponível no portal da ABERT e reúne informações sobre audiência, consumo, publicidade e transformação digital do meio. O material também apresenta a mandala utilizada durante o painel na Paraíba, que pode servir como referência para emissoras interessadas em avaliar sua presença nas diferentes plataformas e identificar possibilidades de aprimoramento de suas operações.

Relacionadas:
> ABERT lança estudo inédito sobre o conceito de Rádio 3.0 e destaca oportunidades para o mercado publicitário
> NAB Show 2026 reforça conceito de rádio 3.0 com participação da Abert e foco em dados, híbrido e multiplataforma
> Rádio 3.0 pauta transformação do setor com foco em conteúdo, gestão e novas receitas no SET Expo 2026
> IBC2026: Rádio 3.0, proeminência e IA exigem maior velocidade do setor, aponta debate da ABERT com o tudoradio.com
> Tendências | Avanço do rádio híbrido reforça evolução do Rádio 3.0 no mercado brasileiro

Compartilhar:
Carlos Massaro

Carlos Massaro

  • Carlos Massaro – Radialista e jornalista, já atuou como coordenador artístico da Band FM de Promissão/SP e como locutor nas afiliadas da Band FM em Ourinhos/SP e na Interativa FM de Avaré/SP. Também trabalhou como jornalista na Hot 107 FM 107.7 de Lençóis Paulista/SP, além da Jovem Pan FM 88.9 e Divisa FM 93.3, ambas de Ourinhos/SP. É advogado inscrito na OAB/SP e membro efetivo regional da Comissão Estadual de Defesa do Consumidor da OAB/SP. Está no tudoradio.com desde 2009, sendo responsável pela atualização diária da redação do portal. LinkedIn
  • Leia também