O rádio está em todo lugar, já a internet...
Artigo destaca a capilaridade e a importância do rádio na cobertura eleitoral diante das limitações de conectividade da internet, especialmente em áreas rurais
Dizem que, sem internet, nada funciona, e há motivos para acreditar nisso, já que redes sociais, produção e distribuição em massa de conteúdo, comércio digital e agora a inteligência artificial passaram a ditar o ritmo de todas as mídias, inclusive das que existiam muito antes do primeiro modem. O dia da eleição, porém, ofereceu um teste prático que nenhuma propaganda de operadora consegue maquiar.
Emissoras de rádio e TV montaram operações ambiciosas para a cobertura do pleito e da apuração, espalhando repórteres por periferias, zonas rurais e escolas em comunidades distantes. O que o público viu foram entradas que caíam, imagens congeladas, links que não fechavam e profissionais improvisando para cumprir a pauta, enquanto, nos estúdios, com internet fixa, os âncoras seguravam a programação.
Os números do IBGE ajudam a entender o tropeço. A internet chegou a 95% dos domicílios em 2025, mas a rede móvel, aquela de que o repórter depende quando sai à rua, funciona em apenas 68% das casas da zona rural, índice que ainda não recuperou o patamar de 2021. Entre o anúncio de cobertura total e a experiência real do usuário existe uma distância que as operadoras preferem não informar.
Foi aí que o rádio fez a diferença, menos pela tecnologia do que pela cultura de quem o faz. O profissional de rádio aprendeu a trabalhar sem garantia, sabe recorrer ao telefone, gravar e enviar depois, descrever o que vê quando não há imagem, porque nunca entregou sua agilidade a uma única conexão. Do outro lado, o sinal da emissora não congestiona quando milhões sintonizam ao mesmo tempo, não cobra pacote de dados e alcança quem não tem smartphone, sustentado por 4.243 rádios licenciadas no país, uma capilaridade que nenhum aplicativo construiu.
O aparelho de rádio está em 46,9% dos lares, o menor percentual da série, e o ouvinte migrou para o carro, o celular e o streaming, o que obriga as emissoras a viver nos dois mundos. Ainda engatinhamos na era da inteligência artificial e já discutimos máquinas que escrevem e falam, enquanto o básico, levar sinal estável a uma escola rural em dia de eleição, continua sem solução.
A internet é a energia das novas mídias, mas energia que oscila não sustenta informação em tempo real. No dia em que o país mais precisou saber o que acontecia, o veículo que parecia velho foi o que chegou primeiro, e isso diz muito sobre qual meio continua sendo, de fato, o mais democrático.

