Milton Jung e Heródoto Barbeiro destacam importância da credibilidade e da adaptação do rádio à inteligência artificial durante evento na Paraíba
Campina Grande – Jornalistas participaram de painel no II Encontro MídiaCom Paraíba e abordaram os desafios da transformação digital, a valorização dos profissionais e o papel do rádio na democracia
A transformação do jornalismo diante das novas tecnologias, os impactos da inteligência artificial sobre a produção de conteúdo e a importância da credibilidade para a permanência do rádio estiveram entre os principais assuntos debatidos na manhã desta segunda-feira (19), durante o II Encontro MídiaCom Paraíba, realizado em Campina Grande (PB). O painel reuniu dois nomes de referência do radiojornalismo brasileiro: Milton Jung, apresentador do CBN Brasil, da rede CBN, e Heródoto Barbeiro, jornalista com passagens por importantes veículos de comunicação e atualmente ligado à Novabrasil FM. Apesar de abordarem diferentes aspectos das mudanças em curso, ambos convergiram na defesa da adaptação tecnológica, sem que o jornalismo perca suas características humanas e o compromisso com a informação.
Com o tema “Jornalismo em transformação: Informação, democracia e os desafios da era digital”, o painel foi mediado pela jornalista Naná Garcez, vice-presidente suplente de Rádio da MídiaCom-PB. A discussão também abordou a necessidade de investimentos em profissionais, a pluralidade de opiniões na programação jornalística e os desafios enfrentados pelas emissoras para manter a audiência em um ambiente de crescente concorrência com plataformas digitais.
Credibilidade e conexão humana sustentam a permanência do rádio
Milton Jung iniciou sua apresentação destacando a relação histórica e afetiva do público com o rádio. Ao recuperar memórias de ouvintes, vinhetas tradicionais e referências de sua própria trajetória, incluindo a atuação de seu pai, Milton Ferretti Jung, no rádio gaúcho, o jornalista ressaltou que a capacidade de estabelecer vínculos com diferentes gerações continua sendo um dos principais diferenciais do meio. “O rádio é história e ele é memória. E é isso que faz com que o rádio permaneça”, afirmou. Para Jung, essa permanência também está relacionada à capacidade de absorver transformações tecnológicas, característica que acompanha o veículo ao longo de sua história.
O apresentador da CBN também destacou indicadores recentes de consumo e confiança no rádio. Segundo os dados citados por ele, 79% da população das 13 regiões metropolitanas pesquisadas pela Kantar IBOPE Media declara ouvir rádio, enquanto 81% dos ouvintes afirmam confiar no meio. Para o jornalista, esse último indicador representa um diferencial importante diante do crescimento da desinformação.
“Tudo o que um jornalista tem que querer ao longo de sua carreira é construir o seu signo da credibilidade”, destacou Jung, ao diferenciar os erros cometidos pelo jornalismo profissional da produção deliberada de conteúdos falsos. Segundo ele, enquanto o jornalista precisa responder por eventuais equívocos, inclusive com consequências profissionais e judiciais, a desinformação parte de uma lógica de desconstrução da verdade.
O jornalista também defendeu que as emissoras ampliem a pluralidade de opiniões e garantam autonomia às suas redações. Como exemplo, citou o projeto “50 Debates para o Brasil”, desenvolvido pela CBN durante a cobertura eleitoral de 2026, que promoveu discussões entre representantes de diferentes posições sobre assuntos de interesse público. O conteúdo foi distribuído pelo rádio, Globoplay, YouTube e redes sociais.

“Às vezes, para inovar, a gente tem que reinventar a roda”, observou Jung, ao destacar que a promoção de debates plurais, embora seja uma prática tradicional do jornalismo, voltou a ser percebida como um diferencial pelos ouvintes.
Na avaliação do apresentador, a abertura dos microfones para diferentes vozes precisa ser acompanhada de questionamentos, contextualização e mediação jornalística. “Microfone ligado não é sinal de diálogo, não é sinal de pluralidade. Microfone ligado não significa nada se o jornalismo profissional não estiver fazendo aquela intermediação na discussão dos temas”, afirmou.
Inteligência artificial exige adaptação, mas não substitui o papel das pessoas
A inteligência artificial ganhou destaque nas apresentações dos dois jornalistas, com abordagens complementares sobre seus impactos na comunicação.
Milton Jung reconheceu o potencial da tecnologia para apoiar o trabalho das emissoras, mas alertou para o risco de sua adoção ser acompanhada pela redução dos investimentos nas equipes. Ao encerrar sua apresentação, utilizou uma referência ao ChatGPT para defender a valorização dos profissionais. “Menos Chat e mais GPT. Menos Chat e mais gente para trabalhar é o que o rádio precisa!”, afirmou, provocando a plateia.
Segundo Jung, a relação entre o rádio e seu público depende fundamentalmente da presença humana, mesmo diante da evolução dos recursos digitais. “Por mais tecnológico que o rádio seja, por mais transformações digitais que nós estejamos passando, tem algo que não vai mudar e não deve mudar no rádio: é a presença das pessoas, pessoas falando com pessoas, pessoas se importando com aquele que está do outro lado.”
Heródoto Barbeiro, por sua vez, concentrou sua apresentação nos efeitos mais amplos da inteligência artificial sobre a sociedade e o jornalismo. O profissional utilizou referências históricas e obras de ficção científica para demonstrar como tecnologias consideradas improváveis em outros períodos acabaram se tornando realidade. “A Inteligência Artificial veio para ficar, quer a gente goste, quer a gente não goste”, afirmou. Para Barbeiro, o avanço da tecnologia representa uma transformação irreversível, que exigirá mudanças na maneira como os veículos de comunicação organizam suas atividades.
O jornalista também chamou a atenção para a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, comparando a corrida pelo desenvolvimento da inteligência artificial à competição armamentista que marcou a Guerra Fria. Na avaliação apresentada por ele, os avanços tecnológicos também levantam preocupações sobre o controle humano e possíveis consequências para a democracia.
Ao abordar especificamente o jornalismo, Barbeiro destacou que ferramentas de inteligência artificial já são capazes de executar atividades que anteriormente exigiam períodos prolongados de trabalho, alterando processos dentro das redações. “Ou rádio, televisão, internet, o que vocês puderem imaginar de mídia, ou a gente se adapta e controla isso aí, ou a gente vai sucumbir”, alertou.
Apesar das preocupações, o jornalista ressaltou que características como emoção, sinceridade e sensibilidade humana continuam sendo diferenciais fundamentais. Para ele, a inteligência artificial deve ser incorporada como instrumento de trabalho, assim como outras tecnologias que transformaram a atividade jornalística ao longo das décadas.
Investimento em profissionais e linguagem adequada são desafios para as emissoras
Durante a etapa de perguntas conduzida por Naná Garcez, os participantes aprofundaram a discussão sobre a manutenção da audiência e a fidelização dos ouvintes diante da multiplicação de fontes de informação.
Milton Jung utilizou um exemplo da programação da CBN para demonstrar que a disponibilidade de informações em aplicativos não elimina a necessidade de uma referência confiável. Segundo ele, mesmo tendo acesso à previsão do tempo e às condições de trânsito pelo celular, ouvintes continuam procurando essas informações na programação do rádio, inclusive cobrando a participação dos profissionais responsáveis por apresentá-las. “Ele quer a confirmação daquela pessoa na qual ele confia”, explicou. Para o jornalista, a relação construída entre profissionais e ouvintes é um dos principais fatores que sustentam a audiência.
Essa relação entre a facilidade de acesso aos dados e a busca por informações contextualizadas também foi percebida durante a apuração do primeiro turno das Eleições 2026. Conforme levantamento publicado pelo tudoradio.com, a procura pelo rádio no Google atingiu seu pico às 17h, justamente no início da divulgação dos resultados, enquanto a audiência do portal avançou 240% no domingo eleitoral. O movimento ocorreu mesmo com os números da apuração disponíveis em tempo real em diferentes plataformas digitais, reforçando a importância da cobertura jornalística para oferecer análises, explicações e repercussões dos resultados. O comportamento observado dialoga diretamente com o exemplo apresentado por Jung: mais do que ter acesso imediato à informação, o público também procura referências confiáveis para compreender aquilo que está acontecendo.
Jung também alertou para um possível ciclo de perda de qualidade nas emissoras que reduzem investimentos em suas equipes. “Ao não investir em pessoas, porque não há tanto investimento no veículo, nós perdemos qualidade. Perdemos qualidade, perdemos ouvintes; perdemos ouvintes, perdemos o interesse do comerciante”, afirmou.
O apresentador relacionou essa questão à própria atratividade comercial do rádio, destacando a credibilidade do veículo e sua capacidade de alcançar simultaneamente grandes contingentes de ouvintes, sem depender exclusivamente dos mecanismos de distribuição das plataformas digitais.
Outro ponto abordado foi a necessidade de preservar uma linguagem própria para o rádio. Jung criticou a prática de reproduzir diretamente nos noticiários radiofônicos textos originalmente preparados para jornais impressos ou portais de notícias. “Nós abrimos mão do texto do rádio, que é aquele texto escrito para quem ouve, e não para quem lê, e copiamos o texto que vai para o impresso/site. Quando se faz isso, não se está respeitando aquele que recebe a informação”, observou.
Para o jornalista, a comunicação radiofônica precisa considerar a maneira como o público fala e compreende as informações, respeitando as particularidades da linguagem sonora.
Heródoto relembra transformações tecnológicas e defende inovação permanente
Ao comentar as mudanças na distribuição de conteúdo, Heródoto Barbeiro recuperou experiências de sua trajetória profissional, incluindo iniciativas que contribuíram para ampliar a presença do rádio em outras plataformas.
O jornalista lembrou de um período de estágio na BBC, em Londres, quando observou a distribuição do áudio de uma emissora de rádio por meio da televisão. A experiência, segundo ele, inspirou a disponibilização do sinal da CBN em um canal de televisão por assinatura no Brasil.
Barbeiro também mencionou iniciativas de distribuição da programação pela internet e a instalação de câmeras em estúdios radiofônicos, práticas que enfrentaram resistências inicialmente, mas posteriormente se tornaram comuns no setor. “Ou seja, nós temos que avançar de acordo com as circunstâncias. Acho que isso é uma contribuição importante para a comunicação de uma maneira geral, para a gente avançar e não ficar reacionário e reativo a essas coisas”, afirmou.
O jornalista também destacou que a popularização dos dispositivos móveis e das plataformas digitais modificou profundamente a estrutura de distribuição de informações. Na avaliação dele, a possibilidade de qualquer pessoa publicar conteúdos rompeu a concentração que anteriormente caracterizava o setor de comunicação.
Nesse cenário, Barbeiro ressaltou que a credibilidade dos profissionais continua sendo um elemento de diferenciação entre a simples divulgação de informações e o trabalho jornalístico reconhecido pelo público.
Ao final do painel, Milton Jung observou que as apresentações foram complementares, apesar de não terem sido combinadas previamente. As manifestações dos dois jornalistas reforçaram a percepção de que a adaptação tecnológica é necessária para a continuidade e o fortalecimento do rádio, mas precisa ser acompanhada da preservação de valores associados ao jornalismo profissional, à linguagem radiofônica e à relação de confiança com a audiência.
O debate integrou a programação do II Encontro MídiaCom Paraíba, realizado em Campina Grande, reunindo profissionais, gestores e representantes de empresas de comunicação para discutir tendências e desafios do setor.
