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Quinta-Feira, 06 de Agosto de 2026 @

Rádio é mídia digital há 30 anos, mas ainda é chamado de analógico

Fernando Morgado reúne evidências de que o rádio é uma mídia digital e online e defende seu reposicionamento na disputa por verbas publicitárias

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Comunicação é um mercado. Sendo assim, existe, por óbvio, comparação e competição entre os meios. Dentro do conceito que defendo, a adição midiática, cada meio tem sua vocação, que se revela na forma como é utilizado e, claro, nos cotejamentos feitos pela audiência e pelos anunciantes.

Multiplataforma não é massa de bolo: é salada. Não se trata de bater ingredientes até formar uma outra coisa qualquer. Trata-se, isso sim, de manter a forma e a função dos alimentos, que, reunidos na saladeira e selecionados pelo talher de quem vai comer, acabam por produzir um novo sabor.

É claro que toda comparação e competição envolve desafios. Um deles, por exemplo, é estabelecer medições equânimes, padronizadas e independentes do desempenho das mídias, função cumprida pelas fontes secundárias e terciárias de dados. Outro desafio é basear a criação de categorias em fatos e evidências, algo indispensável quando se pretende cotejar qualquer coisa, inclusive meios de comunicação.

E um dos erros mais comuns que observo é categorizarem o rádio como um meio offline ou analógico, como se ainda estivéssemos nos anos 1980. Essa categoria faz as emissoras largarem em imensa desvantagem na corrida pelas verbas publicitárias, afinal, os chamados meios online, ou simplesmente on, recebem parte relevante dessas verbas.

Por isso, deixo claro: o rádio é digital e online desde a década de 1990. E isso se dá nos três elos que formam a cadeia da radiodifusão: produção, distribuição e consumo. Tudo começou pela produção, quando as rádios passaram a incorporar os primeiros computadores e softwares. Com o advento da internet comercial, em 1995, a digitalização chegou também à distribuição e ao consumo.

Aqui, faço questão de sublinhar: a internet que você está usando agora mesmo existe comercialmente há 31 anos no Brasil. Cai, portanto, mais um chavão do mercado: o de que internet é nova mídia. E digo mais: nenhuma das 12 mídias existentes no país, conforme a categorização adotada pelo Cenp-Meios, é nova. Todas elas foram inventadas no século XX ou antes. Nova mídia, portanto, deixou de existir faz tempo.

Voltando ao rádio, as emissoras entraram na internet pouco tempo depois da abertura comercial desse meio para o grande público no país. Basta observar as datas em que algumas rádios registraram seus domínios: Itatiaia, em 27 de março de 1996; Rádio Gaúcha, em 2 de maio de 1996; Jovem Pan, em 13 de agosto de 1996; CBN e Rádio Globo, em 25 de outubro de 1996; JBFM, em 28 de novembro de 1996; e Rádio Bandeirantes, em 5 de novembro de 1997.

Mas existem outros fatos que mostram o quão longeva é a presença do rádio na internet. Luiz Artur Ferraretto, o maior acadêmico de rádio do Brasil, lembra que o primeiro programa radiofônico produzido para a web foi lançado em abril de 1996 pelo movimento Manguebeat. A RadioFam, da PUCRS, foi pioneira, em 1997, ao transmitir exclusivamente pela internet. Nesse mesmo ano, a Rádio da Universidade, da UFRGS, tornou-se a primeira emissora de dial a disponibilizar também seu sinal na web.

Também merecem ser mencionadas outras iniciativas pioneiras nessa trajetória, como o lançamento, pela CBN, em 13 de junho de 1997, do primeiro site de noticiário radiofônico do Brasil, e a iniciativa da Jovem Pan e da CBN de, a partir de 2007, complementarem o som do rádio com imagens transmitidas pela internet, algo que já se tornou praticamente um padrão em todo o mercado, especialmente entre as emissoras de conteúdo falado.

Agora vivemos o tempo do rádio 3.0, que representa a renovação dos votos do casamento entre o broadcast e o broadband. Esse conceito traduz a coexistência das diversas formas de se consumir rádio: do FM ao streaming, do aparelho tradicional às smart speakers, do dial aos agregadores, como o Tudo Rádio, por exemplo. Uma das novidades abarcadas pelo rádio 3.0 é o rádio híbrido, no qual a onda de rádio se complementa plenamente com dados vindos pela internet, criando uma experiência ainda mais fluida e interativa para ouvintes e anunciantes. Cabe ressaltar que o rádio híbrido já é uma realidade, cabendo o pioneirismo comercial ao estado deMinas Gerais.

A ausência de um sistema de transmissão digital pelo ar no rádio brasileiro, como ocorreu na TV aberta, não pode servir de pretexto para negar a condição digital do meio. A opção por priorizar a digitalização através da internet foi feita pelo próprio mercado há anos e, quem sabe, ela ainda possa mudar no futuro, o que só reforçaria o quanto o rádio é, de fato, digital.

Diante de tantos dados e fatos, não se pode mais conceber que alguém ainda chame o rádio de mídia offline e, pior, que, por causa desse equívoco, restrinja o meio a uma parcela menor da verba publicitária. O rádio é mídia digital. É mídia online. É mídia on. O meio já evoluiu. Agora é hora de os conceitos e as visões externas evoluírem também.

Tags: Rádio, streaming, digital, consumo, publicidade, mercado, online

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Colunista
Fernando Morgado Consultor e palestrante com mais de 15 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e autor de livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito. Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Clique aqui para acessar o Instagram de Fernando Morgado










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